Por que dizem que Plinio era profeta?

Muito se pergunta: por que dizem os Arautos que Dr. Plinio era um profeta? Um profeta pode guiar a Igreja? Sobre esse assunto, conseguimos um texto interno dos Arautos, que gostaríamos de compartilhar:

 


Nas Sagradas Escrituras a missão principal dos profetas é a de ser mensageiros de Deus, indicando ao povo eleito sua divina vontade e, com previdência sobrenatural, anunciar-lhe eventos futuros. O profeta adverte o povo sobre as consequências de sua má conduta, prevenindo-o da punição divina a ser destinada caso não se converta ou, em sentido inverso, o estimula na prática da virtude e do bem: “Vede: proponho-vos hoje bênção ou maldição. Bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus, que hoje vos prescrevo. Maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus, e vos apartardes do caminho que hoje vos mostro, para seguirdes deuses estranhos que não conheceis” (Dt 11, 26-28).

O profetismo do Antigo Testamento foi como um rio abençoado que desembocou no mar grandioso e imenso da Nova e Eterna Aliança. A célebre profecia de Isaías (cf. Is 7, 14) sobre a Virgem que daria à luz um filho de nome Emanuel realizou-se na plenitude dos tempos no seio virginal de Maria Santíssima, como atesta o Evangelista São Mateus (cf. Mt 1, 23). Da mesma forma, o vaticínio de Miqueias, que indicava o lugar do nascimento do Messias na pequena cidade de Belém, verificou-se com exatidão (cf. Mq 5, 1). Por fim, basta folhear os Evangelhos para se comprovar a quantidade de oráculos proféticos que se cumpriram na Pessoa do Verbo Encarnado.

Saliente-se, por fim, que Nosso Senhor Jesus Cristo, chamou-Se de Profeta (cf. Mc 6, 4), anunciou que em sua Igreja continuaria o ministério dos profetas (cf. Mt 7, 22) e confirmou até mesmo o oráculo de Malaquias (cf. Ml 3, 23-24) sobre uma futura vinda de Elias para pôr em ordem todas as coisas (cf. Mt 17, 11).

No Novo Testamento, os profetas não eram necessariamente Apóstolos, nem sequer Bispos. São Paulo, ao descrever os diversos ministérios da Santa Igreja, assim categoriza os fiéis: “A uns ele constituiu apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo” (Ef 4, 11-12). Os profetas eram fiéis, por vezes leigos, dotados do carisma de prever o futuro e de indicar as vias do Senhor: “Havia então na Igreja de Antioquia profetas e doutores” (At 13, 1). Esses mesmos, “enquanto celebravam o culto do Senhor, depois de terem jejuado”, receberam uma mensagem do Espírito Santo: “Separai-Me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho destinado” (At 13, 2).

A finalidade do ministério profético, em comunhão com o ministério apostólico, é defender a integridade da Fé e da moral: “Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores” (Ef 4, 14).

A finalidade do carisma profético é, sem dúvida, a edificação da Igreja. Ele se exerce prevendo o futuro, indicando os rumos a seguir, alertando dos castigos que esperam os homens se não se convertem, propondo-lhes os meios para encetar a reta via e anunciando a salvação de Deus, pois Ele sempre triunfa!

No exercício de sua missão, os profetas encontram repetidamente a oposição, a incompreensão, a inveja, e são vítimas da perseguição, da calúnia, da ameaça, como o foi o próprio Jesus Cristo, nosso Senhor.

Um profeta – é preciso frisar este aspecto – não pode ser sumariamente catalogado com a pecha de catastrofista ou de derrotista. Ele, mais do que ninguém, mantém aceso em seu coração a chama da certeza da vitória do Céu sobre as potências do inferno e, portanto, ainda que se veja na contingência de anunciar fatos dramáticos – como fez Nosso Senhor em relação a Jerusalém –, saberá alentar os seus indicando-lhes o futuro triunfo. O anúncio da Ressurreição feito por Cristo aos discípulos mostra claramente que da autêntica profecia brota sempre um jato irresistível de esperança.

A solicitude de Nosso Senhor para com o desenrolar da História, em particular da Santa Igreja, O leva a jamais desatendê-la mesmo que os vagalhões pareçam conduzir a nau de Pedro contra arrecifes devastadores. Como explica o Cardeal Charles Journet, que tão relevante papel teve no Concílio Vaticano II:

“[A Igreja] é também esclarecida sobre o estado do mundo e o movimento dos espíritos. Os mais lúcidos de seus filhos participarão desta sua miraculosa penetração. Eles saberão discernir, à luz divina, os sentimentos profundos de sua época, saberão diagnosticar os verdadeiros males e prescrever os verdadeiros remédios […]. Com um instinto sobrenatural e infalível, irão direto ao alvo. O recuo dos séculos manifestará a justeza de sua visão.

“Santo Atanásio ou São Cirilo, Santo Agostinho ou São Bento, Gregório VII, Francisco de Assis, Domingos, viam numa espécie de clarão profético a marcha dos tempos e a orientação que era preciso dar às almas. O autor da Cidade de Deus, o contemplativo que fundou, há oitocentos anos, a regra sempre viva dos cartuxos, São Tomás, que elucidou, três séculos antes da Reforma, as verdades que iam ser mais contestadas no limiar dos tempos novos, Joana d’Arc, Teresa de Ávila, eis os verdadeiros profetas da Igreja. Eram ao mesmo tempo Santos, e é verdade que a profecia é distinta e mesmo separável da santidade. Mas, quando autêntica, se encaixa sempre no sulco da revelação apostólica […]. “Em nenhuma época” – diz São Tomás – “faltaram homens dotados do espírito de profecia, não certamente para trazer qualquer nova doutrina da Fé, mas para dirigir os atos humanos” (II-II, q.174, a.6, ad 3). (JOURNET, Charles. L’Église du Verbe Incarné. Saint-Maurice: Saint-Augustin, 1998, v.I, p.282-284.)

Vale lembrar que a missão dos profetas no Novo Testamento não supre nem se sobrepõe à missão específica do clero, que governa a Igreja na caridade, santifica os fiéis mediante os Sacramentos e os instrui com o ensinamento da verdade. De outra parte, um verdadeiro profeta jamais subverterá a ordem hierárquica da Igreja; antes, a respeitará com heroica dedicação e desprendimento mesmo se for alvo de injustiças, como o mostra de forma lancinante a vida de Santa Joana d’Arc, de Santo Inácio de Loyola, de São José de Cupertino e de São Pio de Pietrelcina, para mencionar só alguns.

Como a História tem evidenciado, ao lado dos verdadeiros, muitos falsos profetas têm aparecido aqui, lá e acolá. Como distinguir o joio do trigo neste campo tão sublime e, ao mesmo tempo, tão intricado? Os critérios usados pela Igreja encontram-se, antes de nada, na própria Revelação divina. A esse respeito São Paulo ensina: “Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo: abraçai o que é bom” (I Tes 5, 19-21). O Livro do Deuteronômio é claro ao dizer:

E o Senhor disse-me: […] eu lhes suscitarei um profeta como tu dentre seus irmãos: pôr-lhe-ei minhas palavras na boca, e ele lhes fará conhecer as minhas ordens. Mas ao que recusar ouvir o que ele disser de minha parte, pedir-lhe-ei contas disso. O profeta que tiver a audácia de proferir em meu nome uma palavra que Eu lhe não mandei dizer, ou que se atrever a falar em nome de outros deuses, será morto. Se disseres a ti mesmo: como posso eu distinguir a palavra que não vem do Senhor? Quando o profeta tiver falado em nome do Senhor, se o que ele disse não se realizar, é que essa palavra não veio do Senhor. O profeta falou presunçosamente. Não o temas (Dt, 18, 17-22).

Acrescente-se a esse primeiro critério outro não menos importante oferecido por Nosso Senhor no Evangelho de São Mateus. Com efeito, para discernir a autenticidade de um carisma, nada mais adequado que pesar a vida do profeta na balança de seus frutos. Eis o conselho divinamente infalível de Jesus para distinguir o falso do verdadeiro profeta:

“Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram. Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abrolhos? Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo aquele que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus. (Mt 7, 13-23).”

Jesus Cristo explicita a relação entre a pureza da conduta e a autenticidade do carisma profético. É inconcebível que um profeta verdadeiro caminhe pela via larga da perdição. Só aqueles que entram com decisão pela porta estreita e principiam a estrada que leva ao Céu – e são raros! – podem ser ornados com o carisma profético para incitar os outros a cumprirem a Lei divina. Por isso, pelos frutos se conhece a árvore, ou seja, pelas boas obras e pelas virtudes. Eis os signos do profeta autêntico. Esse trecho do Evangelho marca com sinal de repulsa divina os falsos profetas, que desviam os homens da via da verdade e os encaminham pela larga e cômoda avenida que leva à separação definitiva de Deus. (Sobre esse tema, ver: São Tomás de Aquino. Sermão “Attendite a falsis prophetis”. In: Lumen Veritatis. São Paulo. Vol.X. N.38 (Jan.-Mar., 2017); p.101-117.)

O profeta não convida os outros a uma vida fácil e sem exigências. Ele deve ter, pois, a coragem de enfrentar, destemido e de peito aberto, a rejeição dos que deveriam se beneficiar de suas palavras, gestos e exemplos.

Conveniente lembrar como São Tomás sintetiza as finalidades desse dom, que não é tão incomum na Igreja. Deus beneficia alguns de seus filhos “non quidem ad novam doctrinam fidei depromendam, sed ad humanorum actuum directionem – não para dar a conhecer novas doutrinas, mas a fim de dirigir os atos humanos” (SÃO TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, II-II, q.174, a.6, ad 3.)

Ademais, como todo carisma, o profetismo é dado em favor de terceiros. Enquanto dele se beneficiam os homens de sua época – e, por que não o dizer, a própria face visível da Santa Igreja -, é exigido do profeta a completa e desinteressada imolação, para o pleno cumprimento de sua vocação, acréscimo de seus méritos, e maior glória de Deus.

Com relação ao profetismo de Plinio Corrêa de Oliveira, é cristalino que desde a sua atuação no Legionário, sua vida não foi senão alertar, indicar rumos, anunciar Cristo, e defender a integridade da Fé em momentos em que, como citado, todos ao seu redor eram levados ao “sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores” (Ef 4, 14).

Não obstante, o reconhecimento desse profetismo já deu causa a ‘estrondos publicitários’ contra Dr. Plinio. No passado, tal acusação provinha de ambientes ‘lefebvrianos’, ou da imprensa leiga, desconhecedores do verdadeiro sentido do termo na teologia católica. Esse tema foi objeto de esclarecimentos desde 1980, além de ter sido tratado nas obras publicadas em 1984 e 1985 (GUIMARÃES et al., Refutação da TFP a uma investida frustra, op. cit., Capítulos II, IX e XI; CLÁ DIAS, Refutação da TFP a uma investida frustra, op. cit., Seção II, Capítulo X; GUIMARÃES, Servitudo ex caritate, op. cit., p.23; 200-205; CORRÊA DE OLIVEIRA, Guerreiros da Virgem: a réplica da autenticidade. A TFP sem segredos, op. cit., p.238-242)

Para finalizar, e sanar a confusão que alguns tem espalhado no tocante a uma suposta ambição do Grupo por ‘pontificar’ ou ‘liderar a Igreja‘, transcrevemos aqui um trecho de uma conversa entre Dr. Plinio e Dom Mayer, antes do rompimento dos dois. Nela, Dr. Plinio responde a uma pergunta do bispo, acerca do papel que esperava de sua obra após os castigos de Fátima e o triunfo do Imaculado Coração de Maria:

(…)

— D. Mayer, eu lhe direi o que penso e Vossa Excelência me responda com franqueza se há algo de heterodoxo. Eu entendo que, em boa parte da Hierarquia da Igreja e do poder temporal, houve um desfalecimento tão grande, que muitos de seus representantes se desorientaram por completo. As dinastias talvez tenham perdido a missão; mas a Hierarquia não, pelo conúbio indissolúvel de Nosso Senhor com ela. Então, nossa posição depois da “Bagarre”, eu a concebo da seguinte forma: o Grupo, enquanto tal, quando muito, possuirá jurisdição sobre seu próprio território. Entretanto, terá de enunciar qual é a doutrina verdadeira e qual é a falsa em matéria de Revolução e Contra-Revolução, e, a fim de combater aquela e fazer triunfar esta, indicar o bom espírito e os rumos que devem ser abraçados para atingir as metas certas. Dessa maneira modelará o espírito da humanidade de acordo com a mentalidade contra-revolucionária e conterá os possíveis avanços da Revolução. Por isso, se a Hierarquia e os governos não se inspirarem no Grupo, o Reino de Maria perecerá. Um Papa ou um imperador poderão recusar a clave profética. Mas ai daquele que assim agir, pois derrubará o Reino de Maria e ficará com as mãos maculadas por tal crime. O que Vossa Excelência acha desse modo de ver?

D. Mayer não perdeu uma só palavra e, como é compreensível, ficou impressionado diante de uma declaração de tanto peso. A bem dizer, Dr. Plinio nunca a teria feito, se a pergunta do prelado não a permitisse. O Bispo ficou pensativo e enquanto continuava a mexer a colher em sua xícara, disse:

— Mas este era o papel do profetismo no Antigo Testamento…

— Sim. Contudo, não se trataria de receber revelações sobre o futuro, mas de dar essa indicação sobre a qual falei. É errado conceber isso?

Depois de refletir por mais alguns instantes, D. Mayer respondeu:

— O profetismo consistia no que você está dizendo, e só secundariamente na revelação do futuro. A principal missão do profeta era a de conhecer as vias de Deus e apontá-las ao povo eleito. Ele exprimia a vontade divina e devia guiar o rei e os sacerdotes, mas sem jurisdição. A graça do profetismo foi concedida de modo excepcional a um sacerdote, e houve até dois reis-profetas. Mas, por regra geral, o profeta era profeta.

— Sim, D. Mayer. A formulação dada por Vossa Excelência coincide com as minhas impressões. Mas esta conversa tomou uma gravidade que não permite mais que seja apenas entre Plinio e D. Mayer; agora é de um fiel com um Bispo da Santa Igreja. Então, pelo amor de Deus e para minha tranquilidade de consciência, eu pergunto do modo mais formal a Vossa Excelência, como Bispo, se, em nossa posição no Novo Testamento, há algo contrário à doutrina católica.

O prelado, com voz diminuída, concluiu:


— Não, é inteiramente ortodoxa e pode existir assim no Novo Testamento.


— Bem, então Vossa Excelência tem aqui a ideia do que o Grupo julga ser.

(Jantar 25/05/1991, in O Dom de Sabedoria na Vida, Mente e Obra de Plinio Correa de Oliveira, Libreria Editrice Vaticana, Vol IV, p. 127)

Diante de tudo isso, constata-se o acerto teológico do título dado por Mons. João à sua recente publicação – Plinio Corrêa de Oliveira. Um profeta para os nossos dias – a qual, inclusive, trata per longum et latum dessa questão.

 

 

 

 

 

5 comentários sobre “Por que dizem que Plinio era profeta?

  1. Plinio Corrêa de Oliveira é um exemplo perfeito de profeta, no melhor sentido bíblico da palavra.
    Se os brasileiros tivessem dado minimamente ouvidos a tudo que ele disse em vida, o país não estaria esse imenso lixo atual, entregue ora à esquerda fanática, ora à direita obtusa e rude.

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  2. Muito interessante a questão dos falsos profetas! Vou ler seu artigo inteiro, agora não será possível. Bom que se diga que Profetas no sentido teológico não existem mais, só no antigo testamento.

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    1. KKKK que se diga de passagem que, além de você não ter lido o artigo inteiro, não sabe nada sobre o sentido teológico do carisma profético… Vale a pena depois você fazer o ridículo de explicar a sua nova tese de não existir mais profetas “no sentido teológico” no Novo Testamento. Mas, por favor, utilize a doutrina católica e autores referendados da Igreja para isso…

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    2. kkkkkkk, então meu querido a Igreja morreu?
      Pois se não morreu fala para os Salesianos pararem de falar que São João Bosco teve sonhos proféticos.

      “Uma visão profética: sonho das duas colunas e do navio

      Em 30 de Maio, Dom Bosco contou ter visto em sonho, uma terrível batalha no mar, desencadeada por uma multidão de embarcações, pequenas e grandes, contra um único majestoso navio, símbolo da Igreja. Esse navio, várias vezes atingido, mas sempre vitorioso, era guiado pelo Papa. Ancorou seguro entre duas colunas saídas do mar. A primeira….”

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