Culto antes da beatificação ou canonização

“Os Arautos rezam aos fundadores sem que eles tenham sido beatificados ou canonizados!!”

“Os Arautos possuem uma desordem doutrinal com esse culto de veneração ao fundador, e precisam ouvir a voz de verdadeiros pastores, para que possam ser reconduzidos à Verdade, que é Cristo, o único que reina, que deve ser glorificado, e que tem poder sobre todas as coisas!!”

A julgar pelo teor dessa última frase, já estão quase virando protestantes esses ‘católicos’ opositores dos Arautos…

Como já vimos em dois posts anteriores, a Igreja Católica diz que todo fiel possui a liberdade de manifestar seu respeito ou até veneração, e portanto seu culto – desde que não exceda os limites devidos a uma criatura – a qualquer pessoa virtuosa, viva ou morta. Uma liberdade que muitas é até uma obrigação moral – no caso dos discípulos com relação aos fundadores, por exemplo.

Não há nenhum segredo nisso. O culto popular é indispensável para o reconhecimento da heroicidade das virtudes de algum falecido por parte da autoridade eclesiástica competente (AMATO, Angelo. “Sensus fidei” e beatificazioni. Il caso Giovanni Paolo II. In: L’Osservatore Romano. N.78 (5 abr., 2011); p.7.). A veneração privada dos fiéis é indispensável, e precede necessariamente a eventual autorização de culto público, pois a Igreja não procura pessoas ignoradas ou desconhecidas para canonizar. A Igreja, na sua sabedoria milenar, limita-se a estudar e confirmar os casos daqueles homens e mulheres que já possuem fama de virtude!

Os milagres que são atribuídos às pessoas que vão ser beatificadas ou canonizadas, como serão obtidos, se não for rezando pedindo a intercessão dessas pessoas?

Quando João Paulo II foi beatificado, o então Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato, SDB, proferiu uma palestra na Universidade Pontifícia Santa Croce com o título: O “sensus fidei” e as beatificações: o caso de João Paulo II, publicada depois no L’Osservatore Romano. Aqui vai um trecho:

Nos processos de reconhecimento da vida santa dos fiéis, o sensus fidei dá origem à chamada fama sanctitatis (ou fama martyrii, para os mártires) e à fama signorum. Não se pode dar início a um processo se não existe uma difusa, genuína e espontânea fama de santidade.

Segundo o Papa Bento XIV (1740-1758), reconhecido como o magister nesta matéria, a fama sanctitatis é a opinião difusa entre os fiéis a respeito da integridade de vida e da prática das virtudes cristãs, exercitadas em modo contínuo e além do modo comum de atuar dos outros bons cristãos. Da fama sanctitatis faz parte também a fama signorum, quer dizer a convicção de obter graças e favores celestes, mediante a invocação e a intercessão de um Servo de Deus morto em odor de santidade (o artigo pode ser lido na íntegra aqui )

Esta fama sanctitatis é uma ação do Espírito Santo no povo, pela qual um fiel recebe a inspiração de rezar por intermédio de outro batizado. Quando o fiel é atendido, ele compartilha com outros o poder de intercessão desta ou daquela alma. Para se ajudarem mutuamente, os devotos distribuem imagens, santinhos, relíquias diretas e indiretas, orações privadas compostas por pessoas mais ou menos simples, mas que circulam livremente – isso vai fazendo a fama de santidade. Isso é tão normal na Igreja Católica que, em dezenas de igrejas por aí, há túmulos de padres e bispos que morreram em fama de santidade, e para os quais as pessoas rezam.

A fama de santidade não deve ser confundida com ‘culto público’.

O que constitui transgressão às leis da Igreja é a realização de um ato oficial de culto público, como por exemplo uma Santa Missa, em honra de uma pessoa falecida porém não canonizada; ou ainda uma celebração eucarística em honra de uma pessoa viva. Já uma Missa de ação de graças pelos dons concedidos por Deus a essa pessoa não tem nada de ilícito, do mesmo modo que se celebra o aniversário de nascimento, ordenação sacerdotal, de casamento, de profissão religiosa, etc. Para comprovar, basta pegar o Missal Romano, que traz diversos formulários, alguns deles com três, quatro ou cinco possibilidades de preces (cf. MISSAL ROMANO. Restaurado por Decreto do Sagrado Concílio Ecumênico Vaticano Segundo e Promulgado pela autoridade do Papa Paulo VI. Tradução portuguesa da 2ª edição típica para o Brasil, realizada e publicada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. São Paulo: Paulus, 2004).

Em relação às relíquias (diretas ou indiretas) e representações (fotos, santinhos, imagens) de pessoas não canonizadas nem beatificadas, será considerado um ato de culto público se a relíquia ou a representação de uma pessoa não canonizada nem beatificada for exposta numa igreja sobre o altar durante a celebração de um ato litúrgico, como uma Santa Missa ou a Liturgia das Horas (trataremos mais disso em outro post).

Quanto a representações (pinturas, fotos, imagens), a norma da Igreja considera um ato de culto indevido representar imagens com raios ou auréola sem que a pessoa retratada esteja beatificada ou canonizada. Tirando isso, não há vedação a que essas representações estejam presentes nas igrejas. Um exemplo é a igreja de San Benedetto in Piscinula, que foi entregue aos cuidados dos Arautos pela Diocese de Roma: em cada lado do altar há efígies de clérigos que atuaram naquela igreja alguns séculos atrás – e nenhum deles foi sequer beatificado. Mas a presença ali não deixa de ser um culto à memória deles.

Pode-se, então, concluir que a Igreja é bastante benevolente com relação aos atos de culto privado.

Não confundir ‘discreto’ com ‘secreto’

Apesar de todo o exposto acima, é necessário lembrar que, em muitos casos, deve-se utilizar da virtude da Prudência, que consiste, como ensina São Tomás de Aquino, na “aplicação prática dos meios certos a cada ato concreto” (Suma Teológica. II-II, q. 47-56.).

Muitas vezes a prudência encontrará apenas uma razão para não dar publicidade a atos de culto privado: evitar aquilo que os moralistas denominam scandalum pussillorum – escândalo daqueles que tem a consciência débil, malformada (por falta de formação doutrinária) ou deformada (por exemplo, quem lê Fedeli ou tem contato com determinados ‘renegados’).

Depois de ter passado anos nos Arautos, temos plena consciência de que lá não existe nenhum culto ‘secreto’ aos fundadores, como alardeiam histericamente por aí. O que existe, conforme explicado acima, é aquilo que a Igreja chama de culto privado, discreto. E o motivo de não haver publicidade não é um suposto receio da doutrina e da Hierarquia, mas sim por prudência, para não estranhar aos pusilânimes e dar combustível para alguns que possuem ‘apetite de escândalo’.

 

7 comentários sobre “Culto antes da beatificação ou canonização

  1. Muito bom esse post e ainda mais estando ilustrado com a foto do quadrinho pintado pelo Sr.Buzarello.Eu estava falando sobre esse blog a um amigo e ele estranhou o nome do blog ,mas depois achou que o nome era bom, pois mostrava que a maior parte dos ex-Arautos continua favorável aos Arautos e admiram os fundadores.

    Curtir

  2. Por aí dá para ver a canalhice daquele sociólogo Massimo Introvigne, que, baseado em mero ACHISMO e fofocas, disse que nos Arautos há “uma espécie de culto secreto e extravagante a uma espécie de trindade composta por Plínio Correa de Oliveira, por sua mãe Donna Lucilia e pelo próprio monsenhor Clá Días”.

    Curtir

  3. Esse texto devia ser lido por certos ‘terciários’ que se acham ‘Os entusiasmados’, e ficam compartilhando no facebook fotos de relíquias e de devoções, e que só servem para causar confusão. A maioria das pessoas acha estranho, porque não tem uma explicação prévia do contexto, e mal sabem o catecismo.
    De acordo que o que está escrito aí, esses ‘entusiasmados’ pecam contra a prudência, confundindo a cabeça de quem não tem formação suficiente para entender.

    Curtir

  4. Belo e ortodoxo, mas vocês dos Arautos foram entregar a TFP para o clero progressista, agora terão que aguentar a pressão. O Vaticano bergogliano está mais preocupado com canonizações de cunho político e ideológico, e não estão nem aí para a milenar “fama sanctitatis”.

    Curtir

  5. O que dirá um certo ‘vaticanista’ aí, mais especializado em fofocas do que em doutrina, e que andou falando de uma ‘trindade’ de fundadores dentro dos Arautos?

    Curtir

    1. Esse aí só falta o que mandar o chefe… olha que foi difícil alcançar o posto em que está agora. Não vai querer perdê-lo tão fácil…

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s