Culto a santos em vida

“Os Arautos não são católicos porque tem devoção a Dr. Plinio, Dona Lucilia e ao Monsenhor João!” Quantas vezes já tivemos que ouvir essa ingenuidade…

No século XVI, Calvino, assim como todos os seguidores dos erros iniciados por Lutero, jogava a seguinte questão aos católicos: “Por que rezar aos ‘Santos’? Devemos dirigir todas as nossas orações só a Deus”. Daí a frase tão propalada “Só Jesus salva!”, ou, mais genérica, “Só Deus salva!”.

A respeito dessa tese calvinista, Santo Afonso de Ligório, Doutor da Igreja,  assim rebate (grifos nossos):

“O ímpio Calvino reprova esta invocação dos Santos, mas sem razão, pois é lícito e proveitoso invocar em nosso auxílio os Santos vivos, e pedir-lhes que nos ajudem com suas orações. Assim fazia o profeta Baruc, dizendo: “E rogai por nós ao Senhor, nosso Deus” (Br 1, 13). E São Paulo: “Irmãos, rogai por nós” (I Tes 5, 25). Deus mesmo quis que os amigos de Jó se recomendassem às orações do seu fiel servo, para lhes ser misericordioso em vista dos merecimentos dele… “Ide ao meu servo Jó… e Jó, o meu servo, orará por vós e eu volverei misericordioso o meu olhar para ele” (Jó 42, 8).

“Se é lícito recomendar-se aos vivos, como então não será lícito invocar os Santos, que, no Céu, mais de perto gozam de Deus. Isto não é derrogar a honra que se deve a Deus, mas duplicá-la, assim como na terra podemos honrar e venerar o rei em sua pessoa, e também na pessoa dos seus servos. É por isso que Santo Tomás diz ser útil invocar e recorrer a muitos Santos, “porquanto pela oração de muitos, às vezes, se alcança o que pela oração de um só não se obteria”.

(SANTO AFONSO MARIA DE LIGORIO. A oração, o grande meio para alcançarmos de Deus a salvação e todas as graças que desejamos. Aparecida: Santuário, 1987, p.28-29.)

Para variar, esse mesmíssimo assunto, referente à licitude da invocação a Santos vivos, já foi objeto de denúncia contra Dr. Plinio em anteriores ‘estrondos publicitários’ (é o realejo tocando sempre). Por exemplo, o capítulo IX de Refutação da TFP a uma investida frustra, intitulado “Das pretensas manifestações de culto ilícito ao Dr. Plinio”, traz especialmente o item 5: “Mais de duzentos casos de culto, onde é transcrita a explicação do teólogo dominicano Pe. Victorino Rodríguez e Rodríguez:

“É preciso advertir que o fato de estar ou não estar nos altares (isto é, canonizado ou não canonizado) não muda o grau de santidade ou configuração com Cristo mas apenas acrescenta o reconhecimento autorizado, público, da Igreja. O Santo canonizado não é mais santo ou mais grato a Deus pelo fato de subir aos altares. O que a Igreja faz ao canonizá-lo é atestar que tal pessoa viveu santamente e é digna de imitação. (GUIMARÃES et al., Refutação da TFP a uma investida frustra, op. cit., p.310-311.)

Ora, se é lícito prestar culto a santos ainda não canonizados, ou, a santos vivos, já começa a ficar questionável a suposta obrigação que eles teriam, de recusar qualquer manifestação de culto privado. O mesmo sacerdote dominicano acrescenta (g.n.):

“Quando os Santos na vida mortal aceitam honras e fazem valer sua intercessão ante Deus, não buscam mais que a honra e a glória de Deus, praticando a misericórdia com os homens com a ajuda de Deus. Caso típico é o da Santíssima Virgem, que não rejeitou as honras que lhe tributava sua prima Santa Isabel, como à Mãe do Salvador; o que fez Maria foi referir tudo à misericórdia de Deus: “Magnificat anima mea Dominum” (Lc 1, 42-48).

Quando os homens quiseram exceder-se em dar culto absoluto [divino] aos Santos, como ocorreu em Listra com São Paulo e São Barnabé, eles o repeliram terminantemente: “Homens, que é o que fazeis? Nós somos homens iguais a vós, e vos pregamos para vos converter dessas coisas vãs ao Deus vivo” (At 14, 13-15).

Em todo caso, quando os Santos em vida admitem ser honrados pela ação de Deus neles ou através deles, evitam absolutamente colocar-se como ponto de referência final desses atos: fazem-no para o bem dos demais e para a glória de Deus. (op. cit., p.310-311)

Outro teólogo dominicano, o Pe. Antonio Royo Marín, entendia no mesmo sentido:

“Os verdadeiros Santos se deixam guiar, em cada caso, pela inspiração do Espírito Santo, que os rege e governa inteiramente. Quando eles rejeitam as homenagens, praticam a virtude da humildade; quando as aceitam, praticam a simplicidade evangélica. As duas coisas estão bem. São Paulo diz: “Os que são regidos pelo Espírito Santo, esses são os filhos de Deus” (Rm 8, 14). E o Profeta Isaías escreve: “Dizei ao justo: está bem” (Is 3, 10). (Idem, p.311-312.)

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Alguém pode estar rasgando as vestes, dizendo que essa comparação é absurda.

Embora muita gente não saiba, a expressão Santos aplicada a pessoas vivas é profundamente teológica e conciliar. E quem explica isso é São João Paulo II na sua Exortação Apostólica de 1988, aos leigos católicos:

“A vocação à santidade mergulha as suas raízes no Batismo e volta a ser proposta pelos vários Sacramentos, sobretudo pelo da Eucaristia: revestidos de Jesus Cristo e impregnados do seu Espírito, os cristãos são Santos e, por isso, são habilitados e empenhados em manifestar a santidade do seu ser na santidade de todo o seu operar. (JOÃO PAULO II. Christifideles laici, n.16: AAS 81 (1989), 418.)

E o mesmo repetia o querido Papa Wojtyła numa audiência geral de 1993, relembrado o ensinamento do Concílio Vaticano II (grifos nossos):

“A santidade cristã tem sua raiz na adesão a Cristo por meio da fé e do Batismo. Este Sacramento é a fonte da comunhão eclesial na santidade. É isso que o texto paulino enfatiza: “Um só Senhor, uma só fé, um só Batismo” (Ef 4, 5), citado pelo Concílio Vaticano II, que deduz daí a afirmação sobre a comunhão que vincula os cristãos a Cristo e à Igreja (cf. Lumen gentium, n. 32). Nesta participação na vida de Cristo através do Batismo é enxertada a santidade ontológica, eclesiológica e ética de todo crente, clérigo ou leigo. (SÃO JOÃO PAULO II. Audiência geral, 24/11/1993.)

No mesmo documento, o papa acrescenta uma citação do Concílio Vaticano II, que declara explicitamente serem Santos todos os batizados que conservam as graças do Batismo:

“O Concílio afirma: “Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por merecimento próprio, mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo Batismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos” (Lumen gentium, n. 40). A santidade é pertença a Deus, e essa pertença é realizada no Batismo, quando Cristo toma posse do ser humano para torná-lo “participante da natureza divina” (II Pd 1, 4) que nele existe em virtude da Encarnação (cf. Suma Teológica. III, q.7,13; q.8, a.5). Cristo, assim, se torna verdadeiramente, como foi dito, a vida da alma. O caráter sacramental impresso no homem pelo batismo é o sinal e o vínculo da consagração a Deus. É por isso que São Paulo falando dos batizados os chama de “os Santos” (cf. Rm 1, 7; I Cor 1, 2; II Cor 1, 1, etc.).

Outro papa, Bento XVI, escreveu:

“No início do Cristianismo, os membros da Igreja eram chamados também “os Santos”. Na Primeira Carta aos Coríntios, por exemplo, São Paulo dirige-se “aos santificados em Jesus Cristo, chamados à santidade, com todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome de Jesus Cristo Senhor deles e nosso” (I Cor 1, 2). De fato, o cristão já é Santo, porque o Batismo o une a Jesus e ao seu mistério pascal. (BENTO XVI. Ângelus, 1/11/2007.)

Portanto, a invocação de santos vivos e ainda não beatificados ou canonizados não só é totalmente teológica e lícita, como também faz parte da própria vida da Igreja Católica.

Para os menos inteligentes, deixamos claro: Santo não quer dizer canonizado ou beatificado, pois a Igreja apenas confere tais títulos a pessoas falecidas.

Continua no próximo post.

7 comentários sobre “Culto a santos em vida

  1. Maniqueista, é isso que são essas pessoas que não entendem a veneração aos santos e as pessoas virtuosas ou exemplares. Por exemplo, será errado eu gostar do Ayrton Sena? Acho que não….

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  2. Quando se cultua ” famosos” como por exemplo artistas, jogadores de futebol, etc.
    Não se nota nenhuma objeção.
    Mas quando se cultua pessoas virtuosas muitos olham com desconfiança.

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  3. As pessoas que criticam a devoção aos fundadores esquecem o básico: só conseguimos méritos estando vivos. Ou seja, a santificação acontece quando estamos vivos.
    Após a morte, o santo é confirmado em Graça. Ou seja tem a garantia que não vai perder o que ganhou em vida.

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