A definição católica de ‘culto’

Qual o significado de ‘culto’? É errado prestar culto a alguém que não seja Deus?

O que diz a doutrina católica sobre isso?

Pope Francis visits Ireland

Resolvemos conferir sobre esse assunto em velhos e sólidos manuais de teologia católica (ou seja, os melhores). Mas, por brevidade, vamos colocar o estritamente necessário.

Começamos por esses comentários, tirados do “Dictionnaire de Théologie Catholique”, de R. Coulon:

“A virtude da religião, como todas as outras virtudes, é uma atividade viva da alma humana. Sua vida se manifesta pelo culto. […] De comum acordo, os teólogos, seguindo São João Damasceno, […] definem o culto como “um sinal de submissão em reconhecimento da superioridade e excelência de alguém”. […]

“Falamos da superioridade e excelência de alguém – 1 um ser, com efeito, pode manifestar sua excelência e superioridade de muitas formas e em diferentes esferas. Ele pode ser superior, eminente, por seu valor pessoal. Será um gênio cuja ciência é imensa, tem intuições maravilhosas e abre para o conhecimento humano horizontes até então insuspeitados; será um herói cujo caráter e energia se impõe à admiração de todos, e que, pela perspicácia e o poder de seu querer, triunfou de dificuldades inauditas; será, mais simplesmente, um atleta, cuja constituição física e músculos de aço fazem lembrar os gigantes de outrora: valor intelectual, valor moral, força física se impõem e dão origem a um sentimento de admiração acrescido de deferência e de respeito, que é um culto. Esses heróis se transformam facilmente em líderes, e o vínculo que submete as multidões dóceis à sua influência é culto (culto individual). Alguém também pode ser reconhecido e receber publicamente deferência pela função que exerce em uma família, ou também numa nação, (culto familiar e culto social) 2. Por fim, acima do indivíduo, da família e da nação, existe uma sociedade que liga os homens a Deus, seu Criador, seu Rei e seu Pai, e os torna membros de uma mesma nação e uma mesma família religiosa. Essa sociedade tem sua hierarquia, cujo píncaro Deus ocupa, e as personalidades eminentes cuja excelência procede da excelência de Deus. (…) O culto religioso é, pois, o reconhecimento da perfeição divina, da eminente superioridade e excelência de Deus sobre toda criatura: ele se estende também ao reconhecimento das dignidades e superioridades emanadas de Deus na sociedade religiosa, seja ela natural, sobrenatural ou preternatural. […] Os direitos superiores de Deus, seu poder, sua dominação: tal é o objeto formal visado pelo culto religioso, e isso faz compreender a quão justo título os teólogos tomaram o hábito de ligar a religião ou culto à virtude da Justiça.

(R. Coulon, Dictionnaire de Théologie Catholique; Paris: Librairie Letouzey et Ané, Tomo III, 1939, p. 2404-2405)

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Funerais de Ayrton Senna

O culto, portanto, é um sinal de reconhecimento. Mas também tem relação com a virtude da Observância:

“Definição. Observância é “a virtude pela qual se presta culto e honra às pessoas constituídas em alguma dignidade”. Assim se exprime São Tomás (Cfr. II-II, 102, 1), em seguida a Santo Agostinho (1. LXXXIII, que. 31), e Cícero (De invent. Rhet. 1. II, cap. 53), que dizem: “Observância é a virtude pela qual os homens excelentes em alguma dignidade são considerados dignos de algum culto e honra”. […] Assim, pois, a observância presta culto aos pais porque são autores da nossa vida, do mesmo modo a observância honra os superiores porque nos governam. Não obstante, como bem adverte São Tomás (loc. cit. ad 2), por essa virtude não só cultuamos os nossos superiores, mas também todos aqueles que são dotados de ciência, de virtude e outros predicados. (Prümmer-Münch, Manuale Theologiae secundum principia S. Thomae Aquinatis, Herder, Freiburg-Breisgau, 1940, 9ª edição, tomo II, p.451)

Culto

Continua o mesmo tratado:

“A honra implica em testemunharmos a excelência de alguém. Ora, o testemunho é dado na presença de Deus ou dos homens. Na presença de Deus, que lê os corações, basta o testemunho da boa consciência. Logo, a honra tributada a Deus pode consistir somente no movimento do coração, isto é, em meditarmos na excelência divina ou na de outra criatura, na presença de Deus. Mas não podemos testemunhar nada em presença dos homens senão mediante certos sinais externos, ou por atos, como as inclinações, as atenções e outros semelhantes, ou também por meios exteriores, como a oferta de dádivas ou de presentes, ou expondo-lhes a imagem à veneração pública, ou por semelhante modo. E, assim, a honra consiste em sinais exteriores e corpóreos (Cfr. São Tomás, Summa, II, 103, 1, resp.) (Prümmer-Münch, Manuale Theologiae secundum principia S. Thomae Aquinatis, Herder, Freiburg-Breisgau, 1940, 9ª edição, tomo II, p. 176-177)

Outro texto diz:

Culto, em geral, é honra prestada com submissão. E posto que a honra é o sinal de nossa estima pela excelência alheia, o culto também pode ser definido como ‘o testemunho da excelência alheia e de nossa reverência’ (Cfr. Polm.2.2, nos. 780-781). A honra se tributa não só aos superiores, mas também aos iguais, e mesmo inferiores, conforme o que diz o Apóstolo: honrando-vos mutuamente com empenho (Romanos, 12, 10). E o próprio Deus tributa honra aos seus Santos – O culto, porém, se tributa somente aos superiores porque inclui a conveniente submissão de si à excelência alheia. Conveniente – dissemos – para que não seja maior que a devida, a fim de não haver pecado por excesso, e nem menor do que a devida, por haver pecado por falta. (Marc Clemens, CS.S.R., Institutuiones Morales Alphonsinae’, Della Pace, Roma, 1906, 13ª ed, I, p.355)

Santo Agostinho
Santo Agostinho e seus primeiros discípulos

Por fim, não podemos deixar de lembrar que o único ato externo exclusivo para o culto de latria (adoração, exclusivamente a Deus) é o sacrifício. Todos os outros atos externos: ajoelhar-se, oferecer flores, acender velas, queimar incenso, podem servir tanto para latria (adoração a Deus) quanto para culto de hiperdulia (honra especial, destinada à Virgem Maria) e até mesmo para a simples dulia (honra à excelência de alguém). Nesses últimos, o que vai definir o grau é unicamente o ato interno. Isso está especificado na página 133 do manual ‘Theologiae Moralis Principia-Responsa-Consilia, Universidade Gregoriana, Roma, 1924, tomo II.

Para finalizar, colocamos um esquema bastante didático, que qualquer pessoa minimamente instruída conseguirá entender:

Culto é um ato de relação entre duas pessoas, o qual pode ser descrito como a manifestação de submissão e reconhecimento da superioridade ou excelência de outrem.

honras

  • O culto NATURAL é aquele a que todos prestam a quem lhes é superior a algum título (intelectual, físico, moral, etc.). Ele pode ser:
    1. Individual – é apenas a relação entre dois particulares;
    2. Familiar – é o culto ao pai e à mãe dentro do lar;
    3. Social – é o respeito devido a todos os que têm alguma função de governo

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  • O culto SOBRENATURAL é o reconhecimento devido à Deus:
    1. Tanto diretamente a Ele,
    2. Como indiretamente a Ele, através das pessoas da religião que nos são superiores, por vocação, missão ou fidelidade aos dons recebidos:
      1. Estejam elas vivas,
      2. Ou já tenham elas falecido.

No culto àqueles que já faleceram e se encontram na visão beatífica se distingue em:

  • Latria – é o culto devido só a Deus;
  • Hiperdulia – é o especial culto reservado a Nossa Senhora;
  • Protodulia – assim denomina-se o culto ao pai virginal de Jesus, São José
  • Dulia – é o culto devido a todos os Anjos e almas que estão no Céu, canonizadas ou não.

O culto prestado a uma pessoa pode ser denominado:

  • Absoluto, quando se venera a própria pessoa.
  • Relativo, quando o que se cultua é um objeto relacionado com a pessoa a quem o culto é dirigido:
    1. Relíquia – é chamada qualquer objeto que tenha uma relação com a pessoa objeto de culto, podendo ser de dois gêneros:
      1. Direta – quando se trata de algo que teve relação vital com a pessoa, ou seja, seu corpo “destinado à ressurreição”, “templo vivo do Espírito Santo”, “instrumento de sua santidade”;
        1. Insignes – se for o corpo completo ou uma parte significativa dele, como a cabeça, algum braço, etc.
        2. Não insignes – as partes menores, como fios de cabelo, um osso, as cinzas de sua sepultura, etc.
      2. Indireta – se for um objeto utilizado pela pessoa em vida, ou tocado numa relíquia direta, mesmo depois de falecida: uma roupa, um livro, uma cadeira, um tecido, etc.plinio correa de oliveira 36
    2. Representação – quando apenas é uma imagem representativa da pessoa cultuada: foto, imagem, pintura, santinho…

Também entre as relíquias de modo geral a Igreja distingue entre:

  • Sagradas – as que têm relação com a Pessoa de Nosso Senhor, de Nossa Senhora, de Santos ou de Beatos já reconhecidos oficialmente;
  • Não sagradas – as das outras pessoas, sejam Servos de Deus com fama de santidade, sejam simples batizados, vivos ou falecidos.

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    Dr. Plinio venera relíquias de Santa Teresa, em Ávila, Espanha, 1988

Por outro lado, todo ato de culto sobrenatural pode ser considerado:

  • Público – quando o ato de culto é uma ação litúrgica. Quer dizer:
    1. É realizado por um ministro da própria Igreja,
    2. Com a intenção de realizar o que a Igreja quer que seja realizado,
    3. Seguindo um ritual estabelecido pela Igreja.
  • Privado – todos os outros atos de culto realizados por qualquer pessoa, mesmo um não batizada, em relação a Deus, a seus Anjos e seus Santos.

plinio correa de oliveira 69

 

5 comentários sobre “A definição católica de ‘culto’

  1. Estimados. Fui miembro de la TFP durante 18 años. Me sigo considerando discípulo del SDP. Las circunstancias de la vida me llevaron por otros caminos.
    NO llegué a ser de los Heraldos fundados por MJC y hay cosas que me gustan mucho pero hay otras que me chocan también bastante.
    Me gustaría conversar sobre esos temas con alguien de “la vieja escuela” pues creo que lo entenderán.!!

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  2. Texto bem feito, mas nenhuma dessas explicações seriam necessárias se o chefe de vocês não tivesse entregado a TFP de bandeja para o clero progressista. Agora estão subordinados aos esquerdistas de batina, com uma coleira no pescoço.

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    1. Prezado “OL”, que visão pessimista. Pense por outro lado: melhor do que ficar quebrando a cara em campanhas de rua é vc dar às pessoas os meios de alcançarem a santidade, principalmente através dos sacramentos.
      Dr. Plinio sempre deixou bem claro que a salvação do mundo NUNCA virá de uma corrente política.
      Para modificar nações, é preciso modificar os corações, e isso só a religiosidade pode fazer – ou seja, só Cristo e seus ministros!

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  3. Até que enfim estou vendo um site HONESTO com relação a essas controvérsias. É de cansar o falatório que as pessoas fazem sobre os Arautos, TFP, Plinio Correa de Oliveira, etc, e eles se limitavam a ficar mandando aqueles PDFs enfadonhos dos anos 80. Aqui está MUITO MELHOR de ler.
    Por exemplo, esse artigo aqui sobre culto. Excelente! Impecável!

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