O papo furado da “Lavagem cerebral”

 

Lavar o cérebro! Plantar pensamentos e convicções!!

Será que existem técnicas psicológicas capazes de extirpar da mente humana as convicções que alguém professa, substituindo-as por outras? Será que é possível confiscar inteiramente o livre-arbítrio, fazendo do homem ou da mulher um robô totalmente submisso ao manipulador?

 “Lavar o cérebro” seria mais ou menos como exercer sobre este uma ação pela qual – mediante prolongados maus tratos, ameaças, subalimentação e trabalho extenuante – o deperecimento físico ou terror deixasse a pessoa num estado de inteira passividade intelectual, incluindo o inteiro afastamento do paciente da atmosfera em que vivia anteriormente. A vítima não teria meios de se defender contra ideias, crenças ou conceitos que lhe quisessem inocular na mente, estando sua inteligência e vontade impossibilitadas de opor um obstáculo intransponível a tal processo.[1]

Bom, cientificamente falando, tudo isso existe apenas no campo da especulação.

“Lavagem cerebral” foi uma metáfora, uma alegoria, que foi utilizada por motivos publicitários e ideológicos, por volta das décadas de 1940 e 1950. Dentre os autores, destacou-se o jornalista norte-americano Edward Hunter Jr., que descreveu para os leitores do The Miami Daily News e The Leader Magazine um método que os comunistas chineses estariam utilizando para convencer pessoas acerca de sua ideologia.[2]

Depois de um tempo sumida, a expressão ressurgiu na década de 1970, dessa vez sendo utilizada pela esquerda e por movimentos “anti-seitas”, que, do ponto de vista da laicidade estatal e da liberdade religiosa e de opinião, não estavam conseguindo qualificar como ‘ilegais’ movimentos filosóficos ou religiosos ditos ‘conservadores’.[3]

Vejam só que situação cômica! A expressão ‘lavagem cerebral’ surgiu com a direita, mas depois foi adotada pela esquerda, sendo que, em ambos os casos, tudo era apenas guerra ideológica, sem nenhuma base científica.

Em 1978, o governo da província de Ontário, Canadá, encomendou um estudo a respeito a uma comissão presidida pelo sociólogo Daniel G. Hill. Fez parte da Comissão o Dr. Saul V. Levine, professor de Psiquiatria na Universidade de Toronto, e reputado estudioso de problemas de adolescentes e de movimentos religiosos. As conclusões foram que não se pode definir em termos legislativos funcionais conceitos como “lavagem cerebral” ou “coerção mental”. Tampouco puderam definir o que é um culto, uma seita ou uma nova religião, para efeitos legislativos e em termos que satisfaçam os ditames da justiça.[4]

É lógico que a antiga TFP também foi acusada de fazer ‘lavagens’ na cabeça das pessoas. Só que Dr. Plinio não deixava esse tipo de acusação em aberto. Nos anos 1980, por ordem dele, esse tema foi objeto de uma “Comissão de Estudos” da TFP norte-americana, gerando uma monografia intitulada “Brainwashing”: a Myth Exploited by the “New Therapeutic Inquisition”,[5] baseada em pesquisas de trinta e oito especialistas de fama mundial nos campos de psicologia, psiquiatria, sociologia e outras ciências sociais.[6]

Em 1987, a Câmara de Responsabilidade Social e Ética para a Psicologia (BSERP) da American Psychological Association (APA), recusou formalmente o reconhecimento da lavagem cerebral, por carência de informações científicas sólidas a seu favor – muito embora ainda exista gente que tente manter o debate em aberto.

As conclusões tiradas de todos esses estudos foram diversas.

A mais interessante, é que um pressuposto filosófico das teorias de lavagem cerebral é o determinismo, que, num sentido mais amplo, estipula que todas nossas atitudes e escolhas seriam causadas por fenômenos químicos ou mecânicos.  Ou seja, não haveria o livre-arbítrio.

Ora, segundo a doutrina católica, o ser humano é uma criatura racional, dotada de inteligência e vontade, e por isso de livre-arbítrio. Por isso, a vontade não é direta e imediatamente acessível à ação de um agente estranho, nem outro homem, nem mesmo um anjo. Segundo São Tomás, diretamente sobre a alma humana, só Deus tem poder de agir. “É, portanto, impossível alguém exercer sobre outrem uma ação irresistível que lhe modifique, contra a própria vontade, o pensamento e o comportamento”.[7]

O que maliciosamente denominam “lavagem cerebral” ou “pressão psicológica” é na verdade um processo de “conversão”, no sentido corrente do termo, isto é, a ação do entendimento e da vontade pela qual alguém renuncia às convicções religiosas, filosóficas, políticas, artísticas, ou outras que tenha possuído e assume, face a qualquer dessas matérias, uma posição oposta, seja esta modificação levada a cabo só por si próprio, seja com a ajuda de outrem. Engloba também a mudança de comportamento – individual e social – de maneira que a pessoa passe a reprovar práticas e atitudes que antes aceitava.[8]

Assim, em seu sentido religioso e católico, o que realmente ocorre nos Arautos do Evangelho e em outros movimentos da Igreja são processos de conversões, com as consequentes modificações no modo de pensar e na forma de vida, que se adequam, às vezes subitamente, às vezes mais lentamente, ao espírito do Evangelho, às práticas da moral e à procura da perfeição cristã. Este fenômeno, tão enraizado no espírito e na história da Igreja, se dá com qualquer ser humano que já possua uso da razão.

Qualificar estas conversões como fruto de uma “pressão psicológica” ou “lavagem cerebral” implica em menosprezar, senão em ofender, a essas pessoas que assim se convertem com total uso das faculdades mentais. Implica também em desconhecer (ou cretinamente distorcer) que a conversão ocorre geralmente por meio do apostolado, e sempre por uma ação da graça divina, a qual, por sua vez, é uma participação criada na vida incriada de Deus, que se opera na própria essência da alma (começa no coração, com uma experiência profundamente individual e pessoal).

E ainda que a pessoa seja cética e não acredite na graça – de qualquer forma, seria uma aquisição ou mudança de convicções – que pode ocorrer desde o momento em que a pessoa adquire a capacidade de pensar e fazer escolhas. Inclusive, a chamada ‘doutrinação esquerdista’, em certos cursos colegiais ou universitários, também é um processo que envolve a razão e a vontade, e jamais poderia ser chamado de ‘lavagem cerebral’ – por mais que mude radicalmente diversos jovens. Do lado oposto, todo esse bombardeio de notícias falsas, de ‘hashtags’ e teorias conspiratórias, que vem mudando tão radicalmente a cabeça das pessoas nos últimos, nada disso é lavagem cerebral. Nem mesmo essas mães de alunas, que se transformaram em inimigas mortais após serem doutrinadas por ‘ex-membros’, e nem os próprios ex-membros, que parecem ter varrido da própria memória tudo o que viveram e conheceram, para plantarem no lugar um simulacro do que realmente foi (algo que poderia ser considerado uma ‘auto lavagem cerebral’) – nada disso é lavagem cerebral. É adesão da vontade, pela qual todos prestarão contas depois desta vida.

Portanto, ‘lavagem cerebral’ é uma expressão metafórica, de apelo sensacionalista, e que nunca foi comprovada experimentalmente, com rigor científico.

FINALMENTE, para quem pretende usar essa fábula de ‘lavagem cerebral’ como motivo para violentar convicções do próximo, lembramos que nossa Constituição Federal garante, em seu artigo 5º, inciso VI:

  VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença

Inviolável. Ninguém pode, por ideologia ou ‘chilique’, querer constranger a consciência alheia, nem mesmo se for de um filho (ou filha) que já possuem pleno uso da razão.

É inadmissível que alguém (católico, principalmente) falte com a caridade mais elementar para com o próximo e para com Deus, querendo humilhar publicamente pessoas, comparando-as a ‘robôs’ ou a ‘incapazes’, só porque possuem convicções diferentes das suas.

 

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NOTAS

[1] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Guerreiros da Virgem: A réplica da autenticidade. A TFP sem segredos, p. 69.

[2] Cf. Ibid., pp. 72-73. Mesmo os trabalhos mais recentes sobre o assunto, em boa parte, se utilizam de referências igualmente antigas, das décadas de 1950, 1960, 1970 e 1980. Por exemplo, uma obra de 2012, intitulada “Thought reform and the psychology of totalism: A study of’brainwashing’in China, que utiliza dados de 1961. Ou então, em excertos mais recentes, como os seguintes: “A mídia ainda procura o termo ‘lavagem cerebral’ em certas situações, por exemplo, relatos sobre cultos, para sugerir uma atividade sinistra, ocultista e gratificantemente sensacional; mas a maioria dos psicólogos provavelmente diria que a lavagem cerebral por si só não é uma explicação. Ou seja, não há nenhum processo mágico específico chamado ‘lavagem cerebral’” (TAYLOR, Kathleen. Brainwashing: The Science of Thought Control. Oxford: OUP, 2006, p. 95).

O texto seguinte é de Massimo Introvigne: “Para a verdade das teorias sobre manipulação mental existem duas versões. A versão grosseira, aquela que sustentava a propaganda anticomunista da CIA nos anos 50, certamente não pertence ao mundo da ciência. Hoje, ninguém usaria mais, como fez em 1953, o então diretor da CIA Allen Dulles (1893-1969), a exemplo do fonógrafo: no cérebro há um disco e os comunistas aprenderam a simplesmente removê-lo e mudá-lo. A versão mais sofisticada – ligada a nomes como Robert Lifton e Edgar Schein – pode ser avaliada de forma diferente, dependendo das opiniões que cada um pode ter sobre as teorias psicanalíticas de que deriva em grande parte. No entanto, esta versão mais sofisticada há décadas não usa mais a expressão ‘lavagem cerebral’ e não sustenta que o ‘condicionamento da personalidade’ funcione de modo ‘mágico’ ou automático, ou que possa ser ‘isolado’, prescindindo das doutrinas a cujo serviço se põe. Em suma, a versão mais ‘respeitável’ da teoria do condicionamento não pode ser usada para formular leis ou definir crimes. A lei deve ser pela sua natureza geral, e esta versão sustenta que cada caso é particular, e requer um exame do contexto e das doutrinas. Na realidade, a estrutura ideológica que subjaz a muitas propostas italianas e parece influenciar a DDL ainda é aquilo da ingênua ‘CIA’ sobre a manipulação mental. Mas esta é uma impostação ideológica desmentida por centenas de estudos empíricos.” [Tradução pessoal] INTROVIGNE, Massimo. Indagine conoscitiva sul fenomeno della manipolazione mentale dei soggetti deboli, con particolare riferimento al fenomeno delle cosiddette “sette”. Disponível em: http://www.cesnur.org/2011/mi-aud.html. Acesso em: 12 ago. 2018.

[3] Cf. Ibid., p. 73-74

[4] Cf. HILL, Daniel G. Study of Mind Development Groups, Sects and Cults in Ontario – A report to the Ontario Government, 1980, pp. 588 a 590, apud CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Guerreiros da Virgem: A réplica da autenticidade. A TFP sem segredos, op. cit., p.74-75.

[5] THE AMERICAN SOCIETY FOR THE DEFENSE OF TRADITION, FAMILY AND PROPERTY. “Brainwashing”: A Myth Exploited by the “New Therapeutic Inquisition”. United States of America: The Foundation for a Christian Civilization, 1985.

[6] Muitos outros cientistas se pronunciam neste mesmo sentido: Trudy Solomon, de National Science Foundation; Drs. Lawrence E. Hinkle Jr. E Harold G. Wolff, consultores do Departamento de Defesa do Governo dos Estados Unidos; o psiquiatra Dr. Edgard Schein; o cientista social Albert D. Biderman, consultor da Força Aérea dos Estados Unidos; Dr. Thomas Szasz, do Upstate Medical Center, da Universidade de Nova York; o psiquiatra britânico James A. C. Brown, ex-diretor do Instituto de Psiquiatria Social de Londres; C. A. Mace, no prefácio do livro de Dr. Brown; Alberto Somit, cientista social norte-americano; Sanford Kadish, Diretor da Faculdade de Direito da Universidade de Berkeley, que sustentou ser a hipótese da lavagem cerebral uma ameaça aos fundamentos do Direito, na medida em que este se baseia no livre-arbítrio e na responsabilidade pessoal; Dr. Walter Reich, professor de psiquiatria, diretor do Programa de Educação e Treinamento no National Institute of Mental Healt, de Washington, e Diretor do Programa de Ciências Médicas e Biológicas na Washington School of Psychiatrics (Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Guerreiros da Virgem: A réplica da autenticidade. A TFP sem segredo, op. cit., p. 80-85).

[7]  AQUINO, Sto. Tomás, Suma Teológica. I, q. 83, a. 1; e q. 111, a. 2.

[8] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Guerreiros da Virgem: A réplica da autenticidade. A TFP sem segredos, op. cit., p. 70.

 

 

20 comentários sobre “O papo furado da “Lavagem cerebral”

  1. Como São Paulo deixou de ser perseguidor dos cristãos para ser um deles?
    Não é difícil imaginar um Fariseu ou um Doutor da Lei indignado e não querendo ver a ação da graça nas almas, inventar calunias.
    Se fosse hoje diriam mudou foi porque fizeram “Lavagem Cerebral”
    Vai estudar Fariseu… Lavagem Cerebral” NÃO EXISTE.
    São Paulo na epístola aos Efésios (4, 22-24), de que o homem velho dê lugar ao homem novo. Portanto, a ação da graça nas almas EXISTE

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  3. Fato: em pouco menos de trinta anos os Arautos criaram um patrimônio bilionário. Considerando-se apenas o que me interessa, isto é, o Brasil, veio o grosso do dinheiro, HONESTAMENTE, da iniciativa privada mas, em especial, do setor secundário, principalmente de lugares como o ABC paulista, onde só ficou de indústrias, perdão pela cacofonia, o setor protegido pelo protecionismo estatal dos tempos do Regime Militar. Na era Prof. Olavo de Carvalho e Dr. Paulo Guedes querem não só continuar nos fazendo pagar, por produtos piores tecnologicamente, três vezes mais do que se paga nos Estados Unidos como aumentar ainda mais o protecionismo, algo que interessa muito aos Arautos, que têm no protecionismo do secundário sua principal receita financeira. Alerta aos Arautos que na era Bolsonaro, na “Igreja leiga”, quem mais têm a perder comigo são vocês. Dinheiro dos Arautos: tenho a chave do cofre!!!!!

    1. Grande decepção… pensamos que AST poderia ser um debatedor interessante, e já no segundo comentário, vemos que… hem… cada qual tire suas conclusões…

    2. Se os Arautos tivessem atrás de dinheiro NÃO seriam perseguidos pela Igreja….
      O dinheiro apodrece as pessoas que o amam… Não seria preciso derruba-los..
      AST. Pense um pouco antes de falar!!!!

  4. Luis Antonio, depois de ver as notas de rodapé mostrando citações de estudos e análises sérias você faz esse comentário? Sua base é a Pitty? Ainda bem que não existe lavagem cerebral, porque se não seria levado a acreditar então que a Pitty lavou os poucos miolos que você aparenta ter na cabeça.

  5. Sejam sensatos por favor!
    Todos os dias ouvindo e falando, teatros videos e audios por dias , meses e anos a mesma coisa ñ seria uma programação.
    Sim senhor , ñ senhor a musica de uma cantora ajudaria a intender ,ouça talvez ops ñ é classico rs é mais verdadeiro do que este textão.
    Pitty admiravél chip novo
    Pax

    1. Todos os comentários que este Luis Antonio faz,que tenho lido em alguns posts me pareceram muito fracos.Será que ele alguma vez pertenceu aos Arautos ou à TFP?
      Ou será um dos atuais seguidores do falecido Fedeli. Este último só sabia fazer zombarias.

  6. Tava demorando chegar a inveja. Tenho muita pena desses “anônimos frustados” pq não conseguem nada na vida e tenta chamar a atenção para eles.
    Com certeza é um ex membro, que foi expulso por mal comportamento e agora fica querendo queimar o filme da instituição.

    1. Sério que o único argumento que vc teve foi isso? kkkkk
      Enfim, já estava previsto que não assimilariam, pessoas psicóticas não aceitam argumentos racionais.

    2. Sr. Anônimo, você poderia nos explicar qual é a vergonha de utilizar a lógica e a sinceridade para explicar a verdade? Ou ao menos nos explicar se você ganha algo para se fazer de bandido e deixar um comentário sem dados concretos e sem nome? Gostaria de saber as informações reais e seu nome. Não precisa responder se fores daqueles sem honra e sem moral.

      1. Kkk… Essa é boa! O tipo sequer tem coragem de aparecer. É o medão que descobram os podres pessoais que ele costuma reputar aos outros. Melhor pra ele ficar anônimo mesmo, não passa de um nulo.

    3. Sr. Anônimo, se tem tanta certeza que esse blog é financiado, cadê as provas?
      Parece que vc faz parte da turma que gosta de destruir a reputação das pessoas na internet.
      Conheço bem esse tipo…. Há alguns anos atrás, tive que fazer uma Ata Notarial para registrar as mentiras contadas por esse grupo.

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