Entendendo as origens do ódio religioso

Às vezes acontece de, em alguns ex-membros de grupos religiosos, nascer um inexplicável ódio em relação àquilo que, anos antes, tinha sido objeto de sua admiração. Não raro essas pessoas passam a trabalhar ativamente contra seus antigos irmãos.

Porém, isso não é nenhuma novidade em termos históricos.

A esse respeito, encontramos um texto de autoria de Philip Jenkins (site Aleteia), no qual ele narra fatos do passado que possuem diversas semelhanças com certo tipo de ódio que costumamos ver em alguns ‘ex-membros’. Publicamos agora porque servirá de embasamento para posts de casos mais concretos que serão publicados em breve.

Confiram alguns trechos (grifos nossos):

 (…)

A Grã-Bretanha, no século XVII, era oficialmente uma nação protestante anglicana, que penalizava as práticas católicas de maneira implacável. Mesmo assim, minorias dissidentes, ou seja, os católicos da resistência, sobreviviam em certas regiões, principalmente a norte e oeste do país. Em períodos normais, eles eram mais ou menos deixados em paz, mas, de vez em quando, eram submetidos a surtos ferozes de violência e de perseguição. A pior dessas crises de violência aconteceu entre os anos de 1678 e 1682, quando muitos católicos, tanto clérigos quanto líderes leigos, foram presos e dezenas deles foram executados, em resposta a um surto de histeria paranoica que se tornou conhecido como “Complô Papista”. De longe, a maior dessas selvagerias ocorreu numa área de fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales, nos condados de Monmouth e Hereford.

Cinco sacerdotes daquela região morreram no cadafalso e vários outros na prisão. Três deles foram caçados até a morte, “sendo martirizados pela miséria e pelos sofrimentos dos seus esconderijos nas montanhas, nos bosques, nas tocas e nas cavernas”. Muitos leigos católicos também sofreram. Alguns magnatas locais, convertidos ao protestantismo anglicano, se tornaram caçadores de sacerdotes católicos em tempo integral, dedicando-se a extirpar qualquer tipo de manifestação do catolicismo. E conseguiram grandes sucessos nessa empreitada. Naquela mesma área de fronteira, por exemplo, uma missão jesuíta que estava prosperando com força acabou sendo completamente eliminada.

Mas por que esse fanatismo todo, que, em termos contemporâneos, equivale ao “antipapado”, foi tão extremo e assassino assim? A resposta, surpreendente, ficou mais clara para mim quando eu observei com atenção as origens dos piores desses fanáticos.

Em praticamente todos os casos, os extremistas protestantes tinham origens católicas. Mais do que isso: em anos anteriores, eles próprios tinham ajudado e abrigado sacerdotes católicos. No geral, tratava-se de homens de famílias divididas entre o protestantismo e o catolicismo; famílias que, inclusive, tinham membros que eram padres da Igreja católica. Os casamentos mistos, entre protestantes e católicos, se tornaram bastante comuns naquela região.

Os sacerdotes que eles perseguiam não eram apenas vizinhos, mas, em boa parte dos casos, eram também parentes próximos.

Os extremistas protestantes eram desertores recentes da antiga fé católica, duplamente zelosos, talvez, para justificar a sua nova visão espiritual de mundo e para extirpar aqueles que agora eram seus “inimigos”.

Um exemplo clássico desta situação foi o de um escudeiro chamado Charles Price, fanático protestante que liderou um ataque armado contra a sede local dos jesuítas e que caçou até a morte um dos sacerdotes. Mesmo depois que o padre estava morto, Charles Price insistiu em exumar o seu corpo para confirmar que ele tinha mesmo sido assassinado. O sacerdote vítima desse ódio patológico foi Walter Price: seu próprio primo. Outros sacerdotes tinham comentado, muito recentemente, sobre o grande amigo e apoiador que Charles Price tinha sido sempre. De repente, porém, Charles Price se voltara com fúria contra a sua fé anterior e passara a usar a crise política como contexto para destruir os seus antigos amigos.

Outro homem que se tornou ativista e informante anticatólico foi Edward Turberville, cuja família tinha tido dezenas de membros presos por causa da sua lealdade católica entre os anos de 1580 e 1620. Seu irmão, inclusive, era abade beneditino. Ao longo do século XVII, Edward foi um dos poucos Turbervilles que não eram católicos. Assim como Charles Price, ele era um recém-convertido protestante que, agora, tinha passado a querer destruir a fé católica.

Pelo menos naquela área da Grã-Bretanha, a crise do “Complô Papista” parece ter sido uma briga de família, se não uma guerra civil dentro da antiga comunidade católica.

Essa ideia de que os recém-convertidos se tornam pessoas extremamente zelosas no tocante à nova causa que abraçaram não é surpreendente.

O próprio Shakespeare observou que as “heresias” que os homens abandonam se tornam mais profundamente odiadas por eles.

Mas devemos acrescentar a isto a dinâmica e as tensões de uma comunidade em que alguns indivíduos se mantém nas antigas práticas enquanto outros se convertem passionalmente a uma nova fé. Se duas comunidades de diferentes religiões vivem próximas uma da outra e cada uma é razoavelmente homogênea, ambos os lados podem ir sobrevivendo e encontrando maneiras de se dar bem. A situação se torna crítica, no entanto, em épocas de conversão muito rápida, quando as famílias são forçadas a tomar partido e escolher um lado ou o outro. Nesses casos, literalmente, irmão se volta contra irmão.

Esta deve ser a situação de guinada na lealdade religiosa mencionada no Evangelho de Mateus, capítulo 10. Jesus avisa aos seus seguidores que haverá um tempo em que “irmão entregará à morte o próprio irmão e o pai entregará o filho”.

Aplicar esses precedentes ao mundo de hoje nos ajuda a compreender um pouco melhor as origens do ódio religioso. Se uma pessoa se manifesta venenosamente contra uma fé em particular, a minha primeira pergunta é se essa pessoa foi criada naquela fé e se alguma vez já sentiu especial amor ou lealdade para com essa tradição. Muitas vezes, este é exatamente o caso.

Os inimigos mais furiosos de uma fé, com grande frequência, são os seus filhos e filhas rebeldes.

(…)


 

E você, já escutou ‘depoimentos imparciais e fidedignos’ de filhos rebeldes de alguma fé ou carisma específico?

 


 

Fonte:  https://pt.aleteia.org/2015/01/13/compreendendo-as-origens-do-odio-religioso/

11 comentários sobre “Entendendo as origens do ódio religioso

  1. Pior de todos, Judas que traiu e entregou Nosso Senhor!!! E é assim, sempre existirão muitos “Judas” na história da Igreja. Porque são orgulhosos e sensuais.

  2. Em 16 anos de grupo, percebi que a imensa maioria que saiu, pouco se importa com o que houve no passado. O grupo é uma fase da vida, assim como foi a infância ou o tempo fa escola. Se serviu para algo de aproveitável, ótimo. As más recordações com os demais MGs que tivemos (porque pontos negativos sempre existem) só servem para praticarmos a virtude do perdão. Viver de rancor não faz bem a ninguém.

  3. É praticamente igual a história dos Arautos do Evangelho.
    Quando o movimento é mais forte e organizado e ultrapassa a mera divergência de ideias, pode apostar que terá sempre um ‘filho rebelde’ instigando.

    1. A perseguição seria contra a igreja verdadeira igreja catolica apostolica é de nosso amado Papa Franscisco ñ do papito mjc kkk.
      Vcs são hilários rs
      Salve Roma!!!!!

    1. “E você, já escutou ‘depoimentos imparciais e fidedignos’ de filhos rebeldes de alguma fé ou carisma específico?”
      Digo mais: vc já escutou ‘depoimetos imparciais e fidedignos’ de ex cônjuges?
      Na maioria das vezes, ambos inventam mentiram pra destruir a reputação do outro.
      Quem quer saber a verdade tem que procurar fontes independentes.

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