Arautos e exorcismos II: métodos inusitados

Postamos aqui um outro texto que chegou até nossas mãos através de um ‘pendrive incandescente’. Dessa vez, é sobre ‘liturgia exorcística’, um assunto que já foi motivo de alvoroço entre os ‘inquisidores de internet’. Segue o texto:


(…)

Nas orações de exorcismo privado rezadas por Mons. João, ele repetia uma fórmula de maldição em latim, que alguns acusaram de “não coincidir com nenhuma daquelas que estão prescritas no manual de exorcismos”. Alguns críticos de batina chegaram a acusar de ser algo ‘folclórico‘, no estilo ‘Harry Potter‘, com ‘pitadas de neo-paganismo‘, e que estaria ‘fora da cultura litúrgica da Igreja‘. Outros, mais preciosistas, se indignaram com o fato de o monsenhor nem sempre usar ‘estola e água benta’.

Antes de tudo, deve ficar claro que, por serem exorcismos privados (ver diferença aqui), não há que se falar em ‘liturgia’ propriamente dita. Mas, mesmo se tomarmos a expressão ‘cultura litúrgica’ no seu sentido amplo, podemos constatar que, ao longo dos séculos, a realização de exorcismos seguiu as mais variadas formas, algumas delas bem pouco ‘convencionais’. Vamos citar alguns fatos concretos.

Começando por exemplos que primam pela simplicidade, temos o caso de Santa Francisca Romana – que era casada e mãe de dois filhos, e afugentava o demônio apenas com sua presença. É o que diz um biógrafo dela:

“Bem merecia esta fortíssima heroína, em prêmio por tantas vitórias contra os demônios nessas tão atrozes batalhas que chegaram a ser terríveis, receber o poder de expulsá-los dos corpos possuídos e pôr fim aos distúrbios e encantamentos feitos por obra deles, tão frequentes naqueles tempos miseráveis. E com esse dom o Senhor a favoreceu com tanta liberalidade, que não havia possesso que não fosse levado a ela para ser abençoado, e bastava sua presença para os demônios fugirem gritando (PONZILEONI, Ludovico. Vita di Santa Francesca Romana. Roma: Salviucci, 1829, p.276).”

Alguns outros com simples jaculatórias colocavam o demônio em fuga – é o caso de São Geraldo Majella, irmão leigo redentorista:

“Um dia notou Geraldo uma grande multidão em torno de um infeliz que se debatia como louco, afugentando de si os que dele se queriam aproximar. O Santo chegou-se sem temor e perguntou:
— Quem és?
— Sou o demônio – foi a resposta.
Em nome da Santíssima Trindade ordeno-te que deixes esta criatura – disse o Santo.
Com as palavras: “Sairei, mas caro me pagareis” perdeu o espírito mau todo o poder sobre o corpo do infeliz (DILGSKRON, Carlos. Vida de São Geraldo Majella. Aparecida do Norte: Santuário, 1934, p.355).”

Outro exemplo de que a solução nem sempre vem dos manuais está em Santo Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas:

“Um dia foi levada, ou melhor, foi arrastada até ele, desde um lugar distante, uma mulher possuída pelo demônio havia quatro anos. Os exorcismos empregados até então só tinham servido para demonstrar a realidade da possessão. Inácio lhe impôs as mãos, fez sobre ela o sinal da Cruz e imediatamente a libertou, deixando-a ir embora” (BARTOLI, SJ, Daniel. Saint Ignace de Loyola. Fondateur de la Compagnie de Jésus: sa vie et son institut. Paris: Lefort, 1893, t.I, p.313).

Ou, mais inusitado, vemos São Paulo da Cruz, fundador dos passionistas:

“Ele [São Paulo da Cruz] introduziu a prática da bênção da água com a relíquia da Virgem, deixando para o ‘advogado do diabo’ o escândalo de ter introduzido “novos ritos”. Também o exorcismo sugerido ao Pe. Ludovico do Sagrado Coração é único em seu gênero: “Escreva um decreto de expulsão bem carregado, e vamos mandá-los [os demônios] embora fazendo uma procissão pelo convento”. No dia combinado, ele [São Paulo da Cruz] “levava o Santíssimo Sacramento na píxide e, ao longo do corredor principal, lia dito decreto com grande império e muitas lágrimas”. Ao mesmo padre [Ludovico], aconselhou escrever “um decreto similar”, selá-lo e fazer uma pobre mulher possuída portá-lo ao pescoço. Houve várias instâncias do promotor da Fé [no processo de canonização] contra o novo gênero de exorcismos, não incluídos no Ritual Romano (ZOFFOLI, CP, Enrico. San Paolo della Croce. Storia critica. Roma: Curia Generalizia PP. Passionisti, 1965, v.II, p.1243).

Outro exemplo de exorcismo ‘diferenciado’ – e menos ‘afável’ – é encontrado na biografia do grande São Filipe Neri:

“Um dos padres do Oratório estava exorcizando um energúmeno, e o demônio parecia caçoar de sua autoridade. Filipe, que estava presente, mandou chicotear este espírito soberbo sobre as costas da vítima. Indignado com esta afronta, o demônio apareceu ao Bem-aventurado na noite seguinte e lhe fez as ameaças mais terríveis, reprovando-o por tê-lo humilhado. Não havia nada que o humilhasse mais do que ver que Filipe se servia de seus discípulos para o expulsar em vez de ele mesmo desempenhar essa função, e se vingava deles tanto quanto podia (PRAU. Vie de Saint Philippe de Néri: fondateur de la Congrégation de l’Oratoire à Rome. Clermont-Ferrand: Thibaud-Landriot Frères, 1848, p.361)”

Igualmente pouco rebuscado foi São Pio de Pietrelcina:

“O santo capuchinho reconheceu na mulher a presença de barbablu [o demônio], foi até ela e lhe deu um pontapé, dizendo com voz autoritária: ‘Vai embora, satanás!’ A mulher desmaiou e ao recuperar-se comprovou que havia sido libertada do diabo” (CATANEO, Pascal. Padre Pio Gleanings. Sherbrooke: Paulines, 1991, p. 172)

Mas nenhum exorcismo é mais insólito do que esse, realizado por São Martinho de Tours, nos primeiros séculos da Igreja:

“Ao entrar, declarou estar vendo um horrível demônio no pátio. Era um demônio que se manifestava no cozinheiro do dono da casa. Este infeliz entrou em uma crise de raiva e com os dentes começou a destroçar tudo o que encontrava. Todos fugiram aterrorizados ante este ser furioso. Só Martinho ficou diante dele. O cozinheiro grunhia mostrando os dentes, e com a boca aberta ameaçava morder. Então Martinho pôs os dedos na boca do possesso e disse: “Devore, se puder!” O possesso, em vez de fechar a boca, a manteve aberta, “como se lhe tivessem posto na garganta um ferro incandescente”. O demônio, não podendo sair pela boca, nos conta a narração, foi evacuado por um fluxo do ventre (PERNOUD, Régine. San Martín de Tours. Madrid: Encuentro, 1998, p.74).”

exorcism possessed
Monge exorciza com auxílio sobrenatural de seu fundador. Horne Museum, Florença, Itália

E para finalizar essa variedade de formas de libertar a pessoa das opressões do demônio, consta ser possível até mesmo invocando outros simples mortais (o que humilha ainda mais o anjo das trevas):

“Os exorcistas também usam objetos sagrados aos quais o demônio reage como se fosse queimado; além da água benta, também sal e óleo exorcizados (segundo fórmulas hoje em desuso), medalhas e imagens, bem como a Eucaristia protegida por uma custódia. A isso se agregam as ladainhas e outras fórmulas do ritual, e ainda fórmulas improvisadas, feitas sob medida segundo as circunstâncias. À invocação dos Santos, alguns acrescentam a invocação de pessoas vivas como Madre Teresa [de Calcutá], cujo nome também provoca vivas reações do demônio através dos possuídos (LAURENTIN, René. Le démon, mythe ou réalité? Enseignement et expérience du Christ et de l’Église. Paris: Fayard, 1995, p.265)

Nesse sentido testemunhou o Pe. Gabriele Amorth:

“Eu invoco sempre o Padre Pio, o Pe. Candido; invoco sempre João Paulo II: ele também é muito forte (TOSATTI, Marco; AMORTH, Gabriele. Memorie di un esorcista: la mia vita in lotta contro satana. Milano: Piemme, 2013, p.171)

Enfim, aí estão amostras da ‘cultura litúrgica’ da Igreja no que diz respeito aos exorcismos…

 

AS ORAÇÕES FEITAS PELOS ARAUTOS

No caso dos exorcismos feitos por Monsenhor João, ele limitou-se a rezar uma prece de maldição. Não chegou a dar varadas (como ordenou São Filipe Neri), nem desferiu algum chute (como fez Pe. Pio), muito embora, ante o alvoroço da pessoa exorcizada, tenha dado ‘croques’ (cascudos com o nó do dedo) e também ‘papeladas’ (batidas com uma folha de papel). Apesar de nenhuma das pessoas envolvidas ter reclamado disso (afinal, não causaram nenhuma lesão, nem física nem emocional), essa foi uma das questões que mais geraram histeria na ‘oposição’.

Em relação à prece, ele rezava: Maledictio Dei omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos, et maneat semper” (A maldição de Deus onipotente Pai, Filho e Espírito Santo desça sobre vós e permaneça para sempre). Trata-se de um antigo costume entre os exorcistas – hoje em desuso -, de invocar reiteradamente sobre os demônios a maldição da Santíssima Trindade.

Sobre “se é possível amaldiçoar alguém”, São Tomás de Aquino apresenta essa doutrina:

“Se alguém manda ou almeja o mal para outrem, visando propriamente fazer-lhe o mal, amaldiçoar será ilícito […]. E tal é o sentido próprio de amaldiçoar. Ao invés, mandar ou desejar um mal para alguém, sob a razão de bem, é lícito. Não se trata de maldição em si, mas acidentalmente, pois a principal intenção de quem fala não mira o mal, e sim o bem. Acontece, porém, dizer alguma coisa má ao ordenar ou ao desejar sob duas razões de bem. Às vezes, por um motivo de justiça. Assim, o juiz licitamente amaldiçoa aquele a quem manda aplicar uma pena justa. Também a Igreja o faz, pronunciando anátemas. Os profetas igualmente imprecam males aos pecadores, conformando-se às ordens da justiça divina (embora tais imprecações se possam entender também como predições). Outras vezes, porém, se diz um mal para outrem visando sua utilidade, desejando que um pecador sofra uma doença ou algum outro contratempo, a fim de que se corrija ou pelo menos deixe de causar danos aos outros (Suma Teológica, II-II, q.76, a.1)

Assim, o Doutor Angélico rebate a quarta objeção, que afirma não ser lícito amaldiçoar o demônio. Responde ele: “Deve-se dizer que, no diabo, havemos de distinguir sua natureza e sua culpa. Sua natureza é boa, provém de Deus e não é lícito amaldiçoá-la. A culpa, sim, deve ser amaldiçoada, conforme a palavra da Escritura: “Amaldiçoem-no os que amaldiçoam o dia [Jó 3, 8]”(Suma Teológica, II-II, q.76, a.4).

Esse milenar costume de amaldiçoar o demônio consta em diversos manuais de exorcistas (cfr. YOUNG, Francis. A History of Exorcism in Catholic Christianity. Switzerland: Palgrave Macmillan, 2016, p.107).

Por exemplo, nas obras do Pe. Girolamo Menghi, publicadas entre 1573 e 1607 com as devidas licenças eclesiásticas, constam quatro volumosos conjuntos de orações e súplicas para uso privado, compostas com a finalidade de atormentar e expulsar os demônios: Flagellum dæmonum, Fustis dæmonum, Eversio dæmonum e Compendio dell’arte essorcistica. Nelas é invocada a maldição de Deus todo-poderoso junto com outras preces, como a do Exorcismo VI:

Maledictio Dei Patris omnipotentis, et Filii, et Spiritus Sancti, et ira et indignatio omnium Angelorum et Sanctorum et Sanctarum Dei, et totius curiæ cælestis, et omnium creaturarum statim sine mora, cum furore maximo descendat super Luciferum, Belzebub, Satan, et super omnes principes dæmoniorum [A maldição de Deus Pai onipotente, do Filho e do Espírito Santo, e a ira e a indignação de todos os Anjos, Santos e Santas de Deus, de toda a corte celestial e de todas as criaturas, imediatamente, sem demora e com o máximo furor, desça sobre Lúcifer, Belzebu, Satanás e sobre todos os príncipes dos demônios] (MENGHI, Girolamo. Flagellum dæmonum: exorcismos terribiles, potentissimos et efficaces. Venetiis: Victorium Sauionum, 1644, p.124).

Outra obra um pouco posterior recomenda ao exorcista rezar exatamente no mesmo sentido: A maldição de Deus onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo, e a ira e a indignação da Bem-Aventurada Virgem Maria e de toda a corte celestial venha e desça sobre ti e sobre Lúcifer e todos os príncipes dos demônios (NOYDENS, Benito Remigio. Práctica de exorcistas y ministros de la Iglesia. Barcelona: Joseph Llopis, 1693, p.239; 263).

Por fim, é necessário deixar claro que os vídeos foram feitos unicamente para serem mostrados a outros padres da entidade, e aquele que encaminhou para fora desse círculo (já se sabe quem foi), expôs essas pessoas ao ódio das redes sociais e cometeu infrações tanto civis, quanto canônicas.

Diante de todo o exposto, podemos concluir que as orações utilizadas pelos Arautos estão em plena conformidade com a doutrina católica e a ‘cultura litúrgica’ duas vezes milenar da Igreja. Resumindo, em termos de exorcismo, “o melhor método é aquele que funciona, e que mais rápido faz cessar a opressão.


 

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11 comentários sobre “Arautos e exorcismos II: métodos inusitados

  1. Esse Post ll esclarece inteiramente toda a questão dos exorcismos que houve dentro das casas dos Arautos.Mas independente desses textos nós tínhamos certeza que o Mons.João Clá estava agindo corretamente,pois conhecemos a sua virtude e sua fidelidade à Igreja.

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  2. Finalmente temos um LINK para postar toda vez que aparecer alguém falando mal dos Arautos! Facilita a vida de quem debate nas redes sociais.

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  3. Eu sou contra os Arautos, e odeio tudo que fazem. Não me interessa quais argumentos tenham. Na época que o papa apoiava vocês, eu detestava o papa. Vocês não merecem existir.

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    1. Parabéns para coerência! Isso aí!: Melhor dizer que não gosta do que ficar inventando mentira.
      Agora… Só tomar cuidado porque difamação é crime. (Não foi o seu caso)

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    2. Que lindo exemplo de cristão! Odeia tanto os Arautos que é capaz de odiar o próprio vigário de Cristo por ódio aos mesmos. Um monumento de amor e coerência! Pena que só no mundinho dele mesmo onde nem sequer nome tem coragem de por… Mas ID não dá para esconder viu?

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  4. Se tem precedentes em São Tomás, Pe. Pio, e Pe. Gabriele Amorth, então declaro definitivamente encerrada a discussão.
    Passemos para a próxima questão.

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  5. Interessantíssimo este artigo, os Santos acabaram adaptando suas formas de exorcizarem os demônios e fazendo raiva neles (gostei disso, hehe…)!!!

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  6. BELOS ARGUMENTOS, UMA PENA QUE 90% DAS PESSOAS SEJAM BURRAS A PONTO DE NÃO ENTENDER ESSAS COISAS.
    A MAIORIA SÓ VAI NA IGREJA PARA MASSAGEAR EGO.

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