Significado de “Enjolras” e ‘Flash”

Aqui segue um trecho que explica duas expressões internas dos Arautos: ‘enjolras’ e ‘flash’. O texto analisa a geração de seguidores que passaram a aderir ao movimento de Dr. Plinio a partir dos anos 1970 – apelidada por ele de ‘geração enjolras’. E também menciona o fenômeno do ‘flash’, associado ao regime da graça utilizado pela Providência para lidar com essa geração:


 

“A partir da revolução da Sorbonne, em maio de 1968, entrou em cena um modo de ser ainda mais ilógico, o qual se difundiu por todo o Ocidente: da ‘geração nova’ [crescida entre a Segunda Guerra e 1968] passava-se ao “enjolrismo”, fenômeno que produziu maiores estragos nas mentalidades e capacidades.

“Rejeitava-se a cultura, punha-se de lado a ligação com o passado e com a História, perdia-se o senso da verdade, do bem e do belo, e estabelecia-se um caos temperamental e nervoso. “Vieram os ‘enjolras’, e eu senti neles um désaxement  de quase toda a personalidade, tornando impossível o querer seriamente e o pensar normalmente”, (Reunião, 8/8/1990) comentava Dr. Plinio. E acrescentava que as causas dessa desordem estavam longe de ser apenas psicológicas ou sociológicas, como pareceria à primeira vista: “Creio que esse fenômeno é produzido em boa parte pelo demônio. Na mais tenra idade a pessoa é tentada, e cada geração que vem está mais flexível do que a anterior, em face da tentação” (Reunião, 8/8/1990).

“E apontava qual era o cerne da alma humana, cada vez mais abalado e desajustado, que poderia ser um dia quebrado e abandonado de forma definitiva. “O que é esse eixo? Não é cultura, não é instrução: é a sabedoria, a boa ordenação da mente por causa da virtude. Pois bem, de ponto em ponto, em determinado momento isso pode chegar aos extremos da ruptura completa com a sabedoria” (idem).

“Conforme ele explicava, as gerações que antecederam a “nova”, influenciadas pelo espírito cartesiano muito em voga no Ocidente, tendiam a supervalorizar o raciocínio, em detrimento da observação da realidade palpável. A esse respeito, torna-se indispensável conhecer os próprios termos empregados por Dr. Plinio ao expor assunto tão complexo em uma reunião com alguns veteranos do Grupo, para os quais o “enjolrismo” era um verdadeiro mistério.

“As gerações anteriores deram a importância primordial ao raciocínio, como sendo a grande atividade da vida de pensamento. Todo o resto entrava pelas ‘frestas’ da memória ou da inteligência, à maneira de um navio de transporte que leva a mercadoria, mas a cujo casco as ostras vão aderindo durante o caminho, carga sem valor na qual o capitão nem pensa, a não ser para mandar retirá-las de vez em quando. Assim também, em comparação com o raciocínio, a observação da realidade seria algo de segunda ordem, que colava os fatos na alma, ao léu” (MNF, 19/12/1978)

“Ora, os membros da geração anterior, tendo recebido de seus maiores essa imposição de adquirir cultura sem interessar-se pela vida cotidiana, sentiam a falta daquilo que Dr. Plinio chamava “o senso superior da realidade” (idem).

“No entanto, não ousavam insurgir-se contra o sistema estabelecido, pois nem sequer imaginavam que outros métodos seriam possíveis: “Na ‘geração nova’ já havia fome desse senso. Eles não concebiam uma vida intelectual diferente da que existia na geração anterior, mas procuravam uma escapatória” (MNF, 19/12/1978).

“E os “enjolras”? Qual era a atitude instintiva deles face a um método de estudo e de pensamento tão arraigado, que seus pais e avós ainda consideravam válido e proveitoso? Eles sim, manifestando sua insatisfação e negando-se a assimilar a doutrina em estado puro e seco, esperavam ouvir de seus mestres exemplos concretos, descrições de ambientes e episódios históricos. Dr. Plinio mostrava o quanto tal reação era compreensível e ressaltava que os melhores dentre eles, inclusive, buscavam leçon de choses, a qual, nos a outra ponta do mundo do pensamento, que também faz parte da cultura: o maravilhoso” (MNF, 19/12/1978).

“Dr. Plinio começou a constatar essa impostação de espírito por ocasião das suas conferências no Grupo, quando frequentadas pelo público “enjolras”. Ao analisá-los, notava pelas fisionomias que alguns deles aproveitavam muito a exposição.

“Perguntava-lhes, pois, o que os atraíra tanto, com avidez a solução exatamente onde ela se encontrava. “Essa escapatória deu na necessidade de uma enorme ‘enjolras’ bons, vem impregnada de um desejo de ir até e a resposta, em geral, não se referia ao cerne do tema doutrinário desenvolvido, mas a um aspecto secundário, como algum exemplo ou metáfora. O seu pasmo foi enorme, porém imediatamente se amoldou ao novo estilo, como relatava anos depois:

“A adaptação que eu tive de fazer foi colossal! Estávamos em outra terra, com outra humanidade…”(Santo do Dia de Sábado, 20/2/1982)

“Entretanto, a par da surpresa ele discerniu também uma ação da Providência naquelas almas. “De repente, tinham um ‘flash’ sobre um assunto colateral. Uma centelha não planejada surgia daquilo que eu dizia, acendia uma fogueira e dava bom resultado. Eu percebia que havia concorrido para isso uma operação da graça, pois eles melhoravam” (idem). Dr. Plinio havia encontrado o “buraco da fechadura” da geração dos “enjolras”. Mas o que vinha a ser o “flash”?

A graça do “flash”: característica de uma vocação

“A expressão não era nova na linguagem do Grupo. Muito acessível a qualquer um por sua relação com o mundo da fotografia, a imagem sempre fora utilizada para definir os momentos em que brilham de modo fugaz determinados aspectos da realidade. Entretanto, já na década de 1970, Dr. Plinio dava o nome de “flash” quase exclusivamente a certas graças atuais de ordem mística, repentinas e passageiras, frequentes na vida espiritual de seus seguidores: “Assim como na hora de tirar uma fotografia faz-se uma luz intensa e a objetiva fixa o que sem essa luz não fixaria, assim também essa graça atua à maneira de um flash, fazendo com que a ‘objetiva’ de nossa alma veja e grave aquilo que, normalmente, não veria nem gravaria” (Reunião, 19/5/1973).

“Apesar de não empregar os termos teológicos dos manuais de espiritualidade, Dr. Plinio possuía uma noção muito nítida acerca dessa graça e fazia questão de frisar o seu caráter interior e todo singular, embora não se trate de um fenômeno extraordinário como as visões ou revelações. “É uma operação do Espírito Santo na alma, pela qual ela discerne a própria presença da graça, como se a visse. Percebe algo de brilhante, rutilante e encantador, que a palavra humana não é suficiente para descrever. São chispas de vida mística” (EVP, 27/8/1972).

“Uma pessoa, por exemplo, encontra-se numa igreja ao se iniciar alguma celebração. De modo inesperado, diversos fatores do ambiente parecem conjugar-se para exercer sobre ela um efeito emocional de grande intensidade. Repicam os sinos, vibram os acordes do órgão e as vozes do coro, eleva-se o incenso e os raios de sol penetram generosos pelos vitrais. A cena é habitual e não se reveste de excepcional solenidade, mas, nessa circunstância específica, quem ali está sente-se transportado para um universo superior, como se visse reflexos de algo que jamais imaginaria contemplar neste mundo. Para ela, o templo brilha como se fosse um espelho do Paraíso Celeste. A respiração se torna quase ofegante e as lágrimas correm. No fim, ao retirar-se dali, não sabe explicar o que se deu, mas tem a impressão de haver sido acariciada por Alguém que a ama sem limites. “O que aconteceu com essa alma? Ela foi visitada pelo “flash”. A esse respeito, descrevia Dr. Plinio:

“Com o ‘flash’ a pessoa se enche de piedade, pois experimenta a alegria de Deus com ela. À maneira de um pai que deixa o filho radiante de satisfação quando lhe faz um carinho com a mão sobre a cabeça, assim também Deus age conosco: por amor, faz-nos sentir de modo especial aquilo que normalmente não sentiríamos. Então compreendemos a sua bondade e percebemos que Ele habita dentro de nós” (Chá, 22/12/1993).

“De fato, toda comunicação mística faz parte da categoria das graças operantes, as quais proporcionam uma experiência do divino, no mais fundo do coração. Entre essas graças, porém, o “flash” se assinala pela sua veemência, pois Deus entra em contato direto com a alma, pondo-a numa situação de arrebatamento.

“Com efeito, nesses instantes a alma atinge um alto estado de união com Deus, característico do dom de sabedoria. Dr. Plinio mostrava o quanto considerava essa graça
mística um dos maiores benefícios recebidos da Providência, e qualificava-a, inclusive, como um poderoso auxílio para a virtude da fé: “Eu tenho a impressão de que a fé se torna quase uma evidência quando a pessoa está recebendo o ‘flash’. Ela se sente como que transposta para uma ordem de coisas meio paradisíaca e celeste” (MNF, 8/8/1975).

“Ele favorece a inteligência através de um conhecimento sobrenatural muito superior ao que esta poderia receber pelos sentidos, dando-lhe certezas plenas e fazendo-a ver com rapidez e profundidade aquilo que jamais chegaria a captar com anos de estudo. Também convida a vontade a amar sem esforço as coisas que levam ao bem, incutindo-lhe forças e entusiasmo para praticar as virtudes, abandonar tudo o que afasta do caminho da santidade.

“No fundo, o “flash” já é uma degustação, prenunciativa e diminuta, daquilo que a alma gozará em plenitude na eternidade, quando se encontrar face a face com Deus, recebendo então o mais sublime de todos os conhecimentos. Podemos afirmá-lo sem dúvida nem receio, em consonância com os sentimentos de Dr. Plinio quando comentava: “Tenho a tendência de achar que o ‘flash’ sobrenatural tem alguma analogia com a visão beatífica, na qual o homem vê a Deus intuitivamente, por cima dos sentidos” (EVP, 7/8/1977).

“Entretanto, se bem que o “flash” possa ser recebido por qualquer pessoa, conforme os desígnios de Deus para cada alma, é preciso frisar que ele era considerado por Dr. Plinio como sinal característico das vias desejadas pela Providência para ele e seus filhos, segundo declarava: “Eu sustento que entre nós todo mundo o tem, desde que preste atenção. É uma certa luz sobrenatural, na qual se vê o esplendor de nossa vocação, por fogachos” (EVP, 27/8/1972). Assim, enquanto fundador ele dava início a uma escola de vida espiritual própria, baseada nas graças que notava serem abundantes entre aqueles que o seguiam.

 

 

“Uma vez que a graça do “flash” é um auxílio concedido por iniciativa de Deus e não depende da colaboração humana para produzir seus efeitos imediatos, é evidente que a pessoa beneficiada deve apenas deixar-se levar, como elemento passivo, à semelhança do navio cujas velas são enfunadas pelo vento.

“Contudo, pelo próprio fato de ser passageira, essa graça não se estabelecerá na alma de forma duradoura se não for cultivada pela lembrança. Passado o entusiasmo sensível, o “flash” “deixa na alma uma consolação e um perfume”, (Reunião, 19/5/1973) como explicava Dr. Plinio. É o momento de tirar proveito dele, dando-lhe valor e importância, procurando aprofundar seu significado e fixar sua recordação. E recomendava: “Entre um ‘flash’ e outro devemos fazer esforço para nos lembrarmos com assiduidade do último, de maneira que a nossa vida possa ser continuamente iluminada pelos ‘flashes’ que tivemos” (EVP, 10/9/1972).

(Extraído de DIAS, João S. Clá, O Dom de Sabedoria na Vida, Mente e Obra de Plinio Corrêa de Oliveira, Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2016. Vol. IV, p 571/578)

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