A perseguição venezuelana de 1984

“Aqueles que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo”. Essa frase, do escritor George Santayana (pseudônimo de Jorge Agustín Nicolás Ruiz de Santayana y Borrás), parece ser bastante adequada para a história que vamos transcrever. Trata-se de uma narração escrita em 1988, para o livro ‘Um homem, uma Obra, uma Gesta – Homenagem a Plinio Corrêa de Oliveira”. Lendo-a, conseguimos entender de onde vem a impressão de ‘déjà-vu’ que acontece quando nos deparamos com algumas das calúnias da ‘seita anti-arautos‘. É um fenômeno que se repete: quando a doutrina cobra uma postura, incomoda, e não pode ser refutada, apela-se para uma perseguição basicamente emocional ou baseada em questões deturpadas. Confiram:


 

Núcleo Venezolano de Defensa de la Tradición, Familia y Propiedad foi fundado em outubro de 1971, a partir de um grupo de universitários que haviam conhecido a Plinio Corrêa de Oliveira e aderido a seus ideais. Essas pessoas também instituíram a “Asociación Civil Resistencia”, conhecida pela revista universitária “Resistencia”, e que foi a denominação mais conhecida do grupo de discípulos de Dr. Plinio naquele país.

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Membros da TFP venezuelana com o Cardeal Mindszenty, em 1975

Dentre as ações memoráveis, destaca-se a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, que vertera lágrimas milagrosamente em Nova Orleans (EUA), que chegou à Venezuela sob os auspícios da TFP, em 1976, sendo venerada por mais de 150 mil pessoas. Em 1978 a entidade difundiu em campanha pública milhares de exemplares do texto “Diálogos Sociais”, onde, em linguagem simples e acessível, era exposta a doutrina social católica sobre temas do momento: propriedade privada, livre iniciativa, família etc.

Em 1984, ante a possível aprovação de projetos de lei que poderiam afetar a fundo o futuro do País, a Associação Civil Resistencia julga seu dever fazer ouvir sua voz no campo dos princípios. Publica então o manifesto O socialismo gerou a maior crise sócio-econômica das últimas décadas – e a lei de Custos, Preços e Salários vai agravá-la. O documento mostrava que a Venezuela estava sendo conduzida gradualmente para onde não queria nem devia ir: rumo ao Estado socialista.

O semanário “Tribuna Popular”, do Partido Comunista, ataca violentamente, em primeira página, a campanha de Resistencia.

Apenas trinta e seis dias depois da campanha de Resistencia a respeito da lei de Custos, preços e salários, o governo socialista do Presidente Lusinchi começa a desencadear contra a entidade o mais violento “estrondo publicitário” da história do País, dando origem a verdadeira perseguição ideológico-religiosa.

A polícia caraquenha invade o imóvel da sede social da entidade, alegando ter recebido denúncia (anônima) de que ali havia menores seqüestrados. Procede ela à vistoria, obviamente nada encontrando.

Depois de um pequeno hiato, a campanha publicitária toma no mês de outubro proporções gigantescas.

Em poucas semanas, cerca de 600 notícias de jornais contra Resistencia são publicadas tão-só em Caracas (das quais 100 em apenas dois dias…), sendo levadas ao ar nada menos que 20 horas de programação de TV. As acusações estapafúrdias se repetem sem cessar, como, por exemplo, a de que todos os anos, no mesmo dia, um membro de Resistencia praticava o suicídio ritual.

Resistencia e o Bureau Tradicão, Família, Propriedade (também atingido pelo “estrondo”) se defendem serenamente, refutando uma a uma, sem exceção, todas as acusações concernentes a seus respectivos âmbitos. As portas das redações dos jornais se fecham para suas respostas, mas elas são publicadas como anúncios pagos. Não há tréplicas. Os instigadores do “estrondo publicitário” retomam as mesmas acusações, como se nada tivesse sido dito pela TFP em sua defesa (o mesmo método de sempre, em todos os lugares…).

De seu lado, o ministros do Governo Lusinchi se associam ao coro, comparecendo diversas vezes à televisão para atacar Resistencia.

Cinco ou seis famílias – os jovens de Resistencia eram cinqüenta – se mostram inconformes com o fato de seus filhos colaborarem com Resistencia. De início, começam a molestá-los. Depois se põem a difamar publicamente o conjunto dos jovens de Resistencia, entre os quais seus próprios filhos, pela imprensa e televisão, fato inconcebível, e até do qual o público venezuelano não conhecia precedentes. Pouco depois, pedem à Procuradoria Geral da República e à Polícia Política (DISIP) que retirem a liberdade de movimento dos jovens de Resistencia, proibindo-os de ausentar-se do País, e ao mesmo tempo solicitam aos corpos de segurança do Estado que os interroguem em presença de psicólogos, para averiguar se sofreram lavagem cerebral em Resistencia ou na TFP brasileira, que haviam visitado durante as férias.

Os órgãos policiais do Governo socialista Lusinchi, que pareciam estar à espera da desconcertante iniciativa dos pais inconformes, no dia seguinte ao pedido se colocam em ação, começando imediatamente os interrogatórios e prolongando-os por oito dias. Alguns dos jovens têm que permanecer até onze horas consecutivas na polícia, sem que lhes seja permitido comer e, em muitos casos, nem beber. A ferocidade policial é alternada com provocações e diversos processos de pressão moral e psíquica.

Tudo lhes foi perguntado, desde qual era a influência da cor vermelha em sua vida, até assuntos íntimos. Ou relativos à liturgia. Ao mesmo tempo, mulheres da polícia os coagiam com convites lascivos, narrações obscenas, e deboches. Alguns tiveram que se submeter a exames toxicológicos, testes psiquiátricos e neurológicos e “avaliações” antropométricas.

A sede de Resistencia volta a ser vistoriada (e o é quatro vezes em poucas semanas…), sem que seja possível impugnar de forma documentada a associação. Sempre ‘suposições’. Diante da nítida perseguição policialesca, esses jovens (o mais velho mal chegava aos 30 anos) reafirmam publicamente sua profissão de fé católica e se mantêm firmes na sua adesão aos princípios da organização que integram. Seria, portanto, de esperar que, da parte da Hierarquia da Igreja da Venezuela, lhes chegasse alguma palavra de conforto. Em vez disto, Resistencia foi atacada publicamente por um Bispo e vários Sacerdotes. O Cardeal José Ali Lebrun, Arcebispo de Caracas (que recebera em seu Palácio, abençoara e desejara sorte ao candidato presidencial marxista, o ex-guerrilheiro comunista Teodoro Petkoff), nega-se a receber os membros de Resistencia quando estes lhe solicitam uma entrevista, e até quando a ele recorrem pelo telefone, o Prelado corta a ligação depois de lhes fazer uma áspera invectiva. Nos mesmos dias, recebe demoradamente em audiência o grupinho de pais hostis. Nenhum dos membros do Episcopado venezuelano responde, nem sequer nos limites mínimos de cortesia prescritos pelas boas praxes, a uma filial e respeitosa circular, em que Resistencia pede alguns esclarecimentos e se põe à disposição para qualquer elucidação.

Uma Comissão Parlamentar de Inquérito

Na segunda semana de novembro, o “estrondo publicitário” é marcado, sobretudo, por uma tumultuosa sessão da Comissão de Política Interior do Congresso para interpelar os dirigentes de Resistencia. Nela, os discursos anti-Resistencia se sucedem, e os dirigentes da entidade têm poucas oportunidades para se fazerem ouvir. O discurso inicial, do deputado David Morales Bello, Presidente da Comissão, já prejulga Resistencia, pois afir­ma tratar-se de uma associação legal apenas na aparência, mas ilegal nos fatos, por violar a Constituição. O deputado não aduz qual­quer prova a suas acusações. Os outros dis­cursos são do mesmo gênero: a Comissão con­dena Resistencia antes mesmo de começar a ouvi-la

Em sentido contrário, o deputado Dr. José Rodri­guez Iturbe, democrata-cristão, levanta-se pa­ra pedir que seja examinado, antes de mais nada, se há provas dos fatos alegados, e quais deles são ilegais. Sua proposta é acolhida agressivamente pela mesa.

A suspensão das atividades por decreto

O fechamento de Resistencia e do Bu­reau pelo governo socialista sobrevém no dia 13 de novembro de 1984, em meio a uma sucessão frenética de acontecimentos.

No dia anterior, o Comitê Executi­vo da Ação Democrática, partido integran­te da Internacional Socialista, ao qual es­tá filiado o Presidente Lusinchi, pedira formalmente que Resistencia fosse fecha­da, e que não se permitisse sua atuação no País.

Pela manhã do dia 13, realiza-se um de­bate na TV, de quase três horas, ao qual com­parecem os jovens de Resistencia, tendo ter­minado com vantagem para estes, co­mo prova o fato de o Governo ter proibido a reprise do programa, já anunciada pela emissora de televisão.

Estranhamente, como “adivinhando” que algo de sensacional estava por suceder, um batalhão de jornalistas e fotógrafos apre­senta-se nos portões da sede, acompanhados pelos pais inconformes. Surge também uma chusma de agitadores (alguns dos quais por­tando paus e facões) liderados por dois depu­tados socialistas dos que mais se destacaram na luta contra Resistencia.

A polícia fora prevenida com insistência pe­la entidade visada, mas entretanto não compare­ce. Seguem-se brados de slogans, o arromba­mento do grande portão, a invasão dos jar­dins e o apedrejamento da sede. Tudo com transmissão simultânea pela TV.

No começo da noite, quando o show re­volucionário chega a seu climax, comparece diante das câmaras de televisão o Ministro da Justiça, Manzo Gonzales, e lê o decreto da suspensão das atividades de Resistencia e do Bureau, decreto esse assinado por ele e pe­lo Ministro do Interior, Octavio Lepage, em nome do Presidente Lusinchi.

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Até adversários estranham

Nos dias seguintes, conhecidas persona­lidades do mundo político, jurídico e jornalís­tico venezuelano – inclusive o ex-presidente Rafael Caldera – saem a público para mani­festar sua estranheza ante a medida ditatorial do Governo Lusinchi. A maioria delas diz não concordar com Resistencia, mas verbera com vigor esse atentado contra o regime de liberdade, juridicamente vigente no País. O Cardeal Lebrun, contudo, declara que “as autoridades competentes do País atuaram con­forme as leis do Estado proibindo o funciona­mento da organização”.

A TFP brasileira fez publicar comunica­do intitulado Perseguição ideológico-religio­sa na Venezuela – Nuvem negra baixa sobre o País irmão, o qual põe em realce a inocên­cia de Resistencia e o inequívoco caráter per­secutório da atitude governamental. Es­se comunicado foi publicado pelas diversas TFPs em alguns jornais de toda a América do Sul.

O veredito da Justiça

A batalha prosseguiu, entretanto, jun­to ao Poder Judiciário, onde tramitavam vá­rios processos de caráter penal, civil e admi­nistrativo em que Resistencia e o Bureau ora eram autores, ora réus.

Os mais importantes eram duas averiguações penais, que termina­ram, ambas, inocentando completamente Resistencia.

A primeira dessas vitórias se concre­tizou em 19 de dezembro de 1984, quando a Procuradoria (Fiscalía) Geral da Nação desis­tiu de formalizar recurso à Corte Suprema de Justiça contra a sentença absolutória das instâncias inferiores, com o que foi encerrada a investigação originada da primeira vis­toria na sede da entidade – em agosto de 1984 – por não existir nada que indicasse a prática de qualquer delito por parte dos mem­bros da associação.

No segundo processo penal houve mui­tas delongas e vicissitudes; finalmente, no dia 30 de dezembro de 1985, o Juiz do 14° Juiza­do Criminal de Primeira Instância do Distri­to Federal, Dr. Saúl Ron Braasch, declarou terminada a averiguação judicial “por não se revestirem de caráter penal os fatos denuncia­dos”. E no dia 15 de maio de 1986 o Juiz do 10° Juizado Superior Criminal proferiu senten­ça definitiva, que confirmou a decisão de pri­meira instância, declarando que a ação penal estava extinta por se tratar de coisa julgada.

Era o veredito inapelável da Justiça, mostrando que a atroz perseguição carecia de qualquer fundamento.

Exílio voluntário

Mas, como se compreenderá facilmente à vista dos fatos acima narrados, considerando o procedimento violento e arbitrário do go­verno, os militantes de Resistencia se sentiram privados do benefício das garantias legais con­feridas aos cidadãos venezuelanos pela consti­tuição. E entenderam ser preferível deixar sua Pátria querida, à espera de dias melhores em que pudessem retornar para servir nela a cau­sa da civilização cristã. Em consequência, muitos deles emigraram e passaram a integrar as TFPs de outros países.

Posteriormente foi possível comprovar que muitas das acusações veiculadas contra Resistencia foram alimentadas pelo norte-americano Lyndon LaRouche, mentor de uma rede de organizações cívicas, culturais, financeiras e políticas, e de uma cadeia de agências de notícias. Esse aparato midiático alimentou de inverdades delirantes o “estrondo” venezuelano em toda a duração (cfr. “Ultimas Noticias”, Caracas, 13-10-84 e “2001”, Caracas, 14-2-85). Posteriormente, Lyndon LaRouche foi condenado a 15 anos de prisão pela Justiça norte-americana, por estelionato (“Folha de S. Paulo”, 28-1-89).

Fonte: www.pliniocorreadeoliveira.info

5 comentários sobre “A perseguição venezuelana de 1984

  1. Muito boa matéria! parece uma narração de episodios da revolução francesa! o metodo revolucionário é sempre o mesmo, mas como bem disse o comentarista logo acima, eles sabem que já estao derrotados! e os bobos que se deixarem seduzir pela menfira e calunia, esses serão varridos com eles!

  2. Queria ver como estão hoje os ‘ex-tefepistas’ venezuelanos que esnobavam sua vida de azaração, e debochavam dos que tinham perseverado na TFP.

  3. Jesus não foi condenado pelo sermão das bem-aventuranças ou pelos ensinamentos sublimes, mas por uma acusação rasteira, fabricada pelos ‘defensores da doutrina’ daquela época.
    É estranho ver que o mesmo método que se repete sempre.

  4. O modus operandi é igual em todos os lugares e em todos os tempos: calúnia. É a prova cabal de que o mal não se aquieta diante do bom, belo e verdadeiro. O problema para eles é a frustração: sabem que no fim perderão, mas continuam a agir como seu pai, o eterno derrotado.

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