Opinião de um teólogo sobre Dona Lucilia

Em 21 de abril de 1968, Dona Lucilia partia dessa vida para a Eternidade. Em sua memória, transcrevemos trechos de um prefácio escrito em 1994 pelo padre espanhol Antonio Royo Marín, dominicano, doutor em teologia e professor catedrático da Pontifícia Universidade do Convento de San Esteban (Salamanca, Espanha).


 

Meu querido e admirado amigo Sr. João S. Clá Dias, autor desta esplêndida biografia de Dona Lucilia Corrêa de Oliveira, teve a amabilidade de me pedir um Prefácio que servisse de apresentação ou pequena introdução para ela. royo marin 2

Para esse efeito, colocou à minha disposição o texto completo datilografado, antes de enviá-lo para a gráfica.

Comecei a ler estas páginas ignorando totalmente o altíssimo valor de seu conteúdo. O que no princípio se configurou como simples curiosidade ante o desconhecido evoluiu rapidamente em franca simpatia, a qual foi aumentando progressivamente até se converter em verdadeira admiração e assombro. Mais que os dados biográficos de uma mulher extraordinária, o que eu ia lendo era a vida de uma verdadeira santa, em toda a extensão da palavra. A amenidade e o extraordinário interesse da leitura não decaiu um só instante. Para isso contribui poderosamente o acerto editorial de dividir o longo texto em pequenos parágrafos, precedidos por um subtítulo em negrito que adianta a idéia que o leitor saboreará em seguida com mais detalhe.

Para dar ao leitor uma ideia aproximada da enorme riqueza documental que reúne esta esplêndida biografia de Dona Lucilia, creio que o mais autêntico e apropriado será coligir os títulos de todos e de cada um de seus quinze capítulos, acompanhados de uma brevíssima síntese do respectivo conteúdo. É o que faremos a seguir.

[o teólogo apresenta um índice sintético dos capítulos do livro]

(…) A vida espiritual de Dona Lucilia consistia em uma oração incessante e num perder-se e abismar-se no Coração adorável de Jesus, sob o olhar materno da Virgem Imaculada. Os testemunhos são incontáveis na biografia. (…) Exatamente ao completar 92 anos de idade, na manhã de 21 de abril de 1968, Dona Lucilia, “com os olhos bem abertos, dando-se perfeitamente conta do solene momento que se aproximava, levantou-se um pouco, fez um grande sinal da Cruz e com inteira paz de alma e confiança na misericórdia divina adormeceu no Senhor” para despertar entre os anjos.
                                                                          * * *

(…) É impossível recolher nesta brevíssima síntese a enorme riqueza documental que o autor pôde reunir de primeiríssima mão (muitas de suas páginas contêm relatos vividos pessoalmente com Dona Lucilia). Trata-se de uma autêntica e completíssima Vida de Dona Lucilia, que pode equiparar-se às melhores “Vidas de Santos” aparecidas até hoje, no mundo inteiro. Sobretudo tem um valor inapreciável a correspondência epistolar entre ela e seus filhos, particularmente com o Dr. Plinio. Em suas magníficas cartas, Dona Lucilia diz com frequência coisas tão sublimes e de uma espiritualidade tão elevada que o leitor é tomado por uma emoção parecida à que produz a leitura do inimitável epistolário de Santa Teresa de Jesus.

Precisamente por isto me atrevo a formular muito concretamente uma pergunta que se desprende, clara e espontânea, da leitura desta maravilhosa Vida de Dona Lucilia. A pergunta concreta é esta: foi Dona Lucilia uma verdadeira santa, em toda a extensão da palavra?

Ou, de outra forma: suas virtudes cristãs alcançaram o grau heróico que se requer indispensavelmente para ser alguém reconhecido pela Igreja com uma beatificação e canonização?

À vista dos dados rigorosamente históricos que nos oferece com grande abundância a biografia que estamos apresentando, atrevo-me a responder com um sim rotundo e sem a menor vacilação.

Longe de mim a ridícula e irreverente pretensão de adiantar-me ao juízo infalível da Igreja! O que me cabe como próprio é dar uma opinião sinceríssima, mas perfeitamente falível. A Igreja nunca erra, nós podemos errar sempre.

Pois bem: minha opinião — sempre falível — parece-me solidamente fundamentada no seguinte raciocínio teológico. É bem conhecido que, no longo e complicado processo canônico para a beatificação e canonização de um servo de Deus, é preciso em primeiro lugar demonstrar com provas e testemunhos absolutamente claros e inequívocos que a pessoa em questão praticou em grau heróico as virtudes cristãs, tanto teologais (fé, esperança e caridade) como morais (prudência, justiça, fortaleza e temperança, com todas as suas derivadas).

Sem virtudes heróicas plenamente comprovadas não há canonização possível. O que de modo algum é necessário — ao contrário do que muita gente pensa — é que o candidato à canonização tenha realizado ou não algum milagre durante sua vida mortal. Isto não tem a menor importância, nem acrescentaria nada às virtudes heróicas, que são a única coisa básica e substancial. Como se sabe, o milagre é uma graça gratis data que o Senhor concede a algumas pessoas independentemente de que sejam ou não verdadeiros santos. A imensa maioria dos santos canonizados pela Igreja não praticou nenhum milagre enquanto estavam neste mundo, embora tenham que fazê-lo depois da morte, como veremos em seguida. Boa prova disso é que nada menos do que a Santa das Santas, a Imaculada Virgem Maria, não realizou nenhum milagre durante a vida mortal. É certo que Jesus realizou, a pedido de sua Mãe, seu primeiro grande milagre nas bodas de Caná, convertendo a água em finíssimo vinho, mas o milagre realizou-o Ele, não Ela, que se limitou unicamente a pedi-lo, sem realizá-lo de sua parte.

O que, isto sim, é necessário é que se produza algum milagre, absolutamente claro e manifesto, por intercessão do candidato canonizável, depois de sua morte santa. Por que depois e não antes? Não antes, porque não é necessário para a santidade, como acabamos de dizer; mas sim depois, para que a Igreja tenha uma prova irrefutável de que a vontade de Deus é que se proceda à beatificação do servo de Deus (ou à sua canonização, se se produz um segundo milagre) do qual conste haver praticado em grau heróico as virtudes cristãs, o que é o básico e fundamental. O milagre posterior à morte é como que o selo divino que garante o acerto da Igreja ao proceder à beatificação ou canonização.

A última palavra pertence à Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana, que é a mestra infalível da verdade. Mas a nós nos incumbe o doce dever e o sagrado direito de pedir humildemente à Divina Providência que leve a feliz termo nossa entranhada petição, para a glória de Deus e grande proveito das almas.

Madrid, 29 de junho de 1994.

Frei Antônio Royo Marin, O.P.

 


 

Obras de autoria do Pe. Royo Marín, O.P.

-Amarás al Señor, tu Dios. Sevilla: Apostolado Mariano.
-Alabanza a la Santísima Trinidad. Madrid: B.A.C.
-Una oración espléndida: elevación a la Santísisma Trinidad. Madrid: Palabra.
-Teología de la Perfección Cristiana — Resumen Esquemático.
-Alcalá de Henares: Carmelitas Descalzas.
-Santa Teresa de Lisieux, Doctora de la Iglesia. Madrid: B.A.C.
-Doctoras de la Iglesia: Doctrina espiritual de Santa Teresa y Santa
Catalina de Siena. Madrid: B.A.C.
-Doctoras de la iglesia. Santa Teresa de Jesús, Santa Catalina de Siena y
-Santa Teresa de Lisieux. Madrid: B.A.C.
-Por qué soy católico. Confirmación en la fe. Madrid: B.A.C.
-Ser o no ser santo… Ésta es la cuestión. Madrid: B.A.C.
-El rosario de María: temas de meditación. Sevilla: Apostolado Mariano.
-¿Se salvan todos?: estudio teológico sobre la voluntad salvífica universal de Dios. Madrid: B.A.C.
-La caridad evangélica. Sevilla: Apostolado Mariano.
-La Virgen María. Sevilla: Apostolado Mariano.
-Tu salvación. Sevilla: Apostolado Mariano.
-La devoción a María. Sevilla: Apostolado Mariano.
-Los mandamientos. Sevilla: Apostolado Mariano.
-El mundo de hoy. Madrid. Rialp.
-Sentir con la Iglesia: la Iglesia de Cristo y la salvación eterna. Madrid: B.A.C.
-Teología de la perfección cristiana. Madrid: B.A.C.
-Teología de la salvación. Madrid: B.A.C.
-Teología de la caridad. Madrid: B.A.C.
-Teología de la fe. Madrid: B.A.C.
-Teología de la esperanza. Respuesta a la angustia existencialista. Madrid: B.A.C.
-Teología moral para seglares. Madrid: B.A.C.
-Espiritualidad de los seglares. Madrid: B.A.C.
-Dios y su obra. Madrid: B.A.C.
-Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: B.A.C.
-La Virgen María. Teología y espiritualidad marianas. Madrid: B.A.C.
-La vida religiosa. Madrid: B.A.C.
-Catecismo de la doctrina cristiana. (Com Gaspar Astete, SJ) Sevilla: Apostolado Mariano
-Los grandes maestros de la vida espiritual. Historia de la espiritualidad cristiana. Madrid: B.A.C.
-El gran desconocido. El Espíritu Santo y sus dones. Madrid: B.A.C.
-El misterio del más allá. Madrid: Rialp.
-Los Cursillos de Cristiandad. Madrid: Euramérica.
-Las siete Palabras de Nuestro Señor Jesucristo en la cruz.
-Salamanca: San Esteban.
-Nada te turbe. Madrid: Palabra.
-La oración del cristiano. Madrid: B.A.C.
-Somos hijos de Dios. Misterio de la divina gracia. Madrid: B.A.C.
-El sacramento del perdón. Madrid: B.A.C.
-La fe de la Iglesia. Lo que ha de creer el cristiano de hoy. Madrid: B.A.C.

3 comentários sobre “Opinião de um teólogo sobre Dona Lucilia

  1. Cheguei a conhecer a Sra.Da.Lucília em vida.Estive no apartamento dela para visitar ao Sr.Dr.Plínio que estava em convalescência de uma pequena operação,no dia 9 de janeiro de 1968.Fiquei 2 horas no apartamento e pude observar várias vezes a Sra.Da.Lucília.Ela me deu a impressão de uma senhora muito aristocrática e muito bondosa. Eu havia me aproximado da TFP há pouco tempo.

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  2. Não só reso todos os dias à Senhora Dona Lucília, como procuro ter meu estado de espírito em sintonia com o dela, e apreendi muito> Sou disputado pelos meus tres netos pela minha companhia, que as vezes tenho que me esconder.

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  3. Bom, de um lado temos um teólogo de alto calibre atestando a provável santidade de Dona Lucilia.
    Em sentido contrário, temos Orlando Fedeli & cia.
    De qual lado será que eu fico? Alguém ainda tem dúvida? kkkkk

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