Freiras escravas

Alguém com pouco conhecimento da fé cristã – digamos, um neo-pagão, ou um semi-catequizado – ao ler esse título provavelmente ficará com uma pulga atrás da orelha. Afinal, ao escutar a palavra ‘escravidão’, poderá imaginar os escravos da Antiguidade, sendo tratados pior que animais, ou, então, imaginará a senzala, onde todos dormem amontoados, sujos e maltratados, ou, ainda, pensará em alguma série de TV que retrata uma sociedade macabra onde certas mulheres são subjugadas para servir como meros objetos para o pecado.

Não. Não é dessa lamentável escravidão pagã que vamos tratar, e sim da cristã. Portanto, retire todos esses ‘pré-conceitos’ de sua cabeça, e agora leia esse texto:

A escravidão é o pensamento fundamental da religião, que tem suas raízes no santo Batismo. Nele, rompemos com o jugo da escravidão do pecado, do mundo e do demônio, para sermos escravos de Jesus Cristo (cf. 1 Cor 7, 23; Rm 6, 20-22). A escravidão é o que há de mais radical de entrega em nossa relação com Jesus Cristo.

São Luís Maria nos ensina que há três espécies de escravidão, ou pelo menos, três títulos que expressam esta dependência do gênero humano para com Deus: 1) A escravidão por natureza. Todas as criaturas são escravas de Deus neste sentido; 2) A escravidão por constrangimento, ou coação, em que alguém é reduzido à servidão, seja por violência, seja por uma lei justa ou injusta. Tal é a escravidão dos demônios e dos réprobos; 3) A escravidão por amor, ou por livre vontade. Nesta, escolhemos Deus e o seu serviço acima de todas as coisas, mesmo que a natureza não nos obrigue a isso. “Em resumo, e como aplicação destas três espécies de escravidão: todas as criaturas são escravas de Deus pelo primeiro modo; os demônios e réprobos, pela segunda; os justos e santos, pela terceira”.

(Fonte: Canção Nova )

Agora, depois de apresentar (resumidamente) a possíveis preconceituosos que nos lêem o significado da Escravidão de Amor, vamos informar sobre uma promissora família de almas surgida nos tempos recentes.

E, para infelicidade dos que são obcecados em ‘mistérios’ dos Arautos, hoje o tema não será a ‘Ordem Segunda’. Vamos, na verdade, apresentar as “Escravas Reparadoras da Sagrada Família“.

Trata-se de uma recente e promissora comunidade, que se descreve assim:

“O nome “Escravas Reparadoras da Sagrada Família” significa que as religiosas, ao viver em comunidade o espírito de Nazaré, procurarão transmiti-lo aos lares, segundo as palavras de São Paulo: “servi-vos uns aos outros pela caridade do Espírito” (Gal. 5, 13). Assim, serão escravas de amor umas das outras, vivendo os votos de maneira reparadora.”

(…)

“O fim deste Instituto é a aquisição da Divina Sabedoria, ou seja, a santificação de cada membro ao modo da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, no cumprimento da vontade de Deus manifestada pela obediência.”

(…)

“Como alcançarão essa finalidade?
Primeiramente, tomando como Regra de Vida a que foi escrita por São Luís Maria Grignon de Montfort para as Filhas da Sabedoria, com as devidas adaptações segundo o espírito do Instituto. Procurarão seguir seus conselhos e suas máximas espirituais.”

(Fonte: ibpamericalatina)

Como se vê, é uma espiritualidade bastante parecida com a dos Arautos – ou seja, aquela preconizada por São Luis Grignion. Afinal, além de desvendar a possibilidade da ‘escravidão de amor’, esse santo também dizia que, dentro do contexto de vida cristã, ‘aquilo que o superior proíbe ou ordena é absolutamente o melhor diante de Deus’ (Obras Completas, BAC, Madri, 1954, p. 615).

O escravo antigo estava reduzido àquele estado contra sua vontade, e deveria permanecer assim até o final de sua vida. No estado religioso, tudo provém de um ato de vontade soberano e livre, com o qual o súdito se submete ao superior, à Ordem, à Regra, que, por sua vez, devem conduzi-lo a Deus: “É necessário insistir sobre essa situação jurídica: a santa servidão procede da dádiva voluntária do monge à potestas do Abade” (Catherine Capelle, Le voeu d’obeissance des Origines au XIIe. Siécle, Librairie Generale de Droit et de Jurisprudence, Paris, 1959, p.91).

Tudo isso é absolutamente de acordo com a mais pura doutrina católica. Afinal, como já dizia São Gregório Nazianzeno, um dos Padres da Igreja, “é escravo todo homem ruim, e todo homem virtuoso é livre (Poemata Moralia, XXV, 27-29, PG XXXVII, col. 853, in Dic. Theol. Cath., t. V, col 504-505).

Parabenizamos a essa comunidade, e desejamos que prosperem.

Bom domingo a todos.

 

 

 

(Imagem do cabeçalho: Canção Nova)

10 comentários sobre “Freiras escravas

  1. É admirável que religiosos levem a obediência a um tal grau de perfeição a ponto de se considerarem escravos de amor aos superiores.É a mais perfeita prática da obediência.Admirável e inteiramente respeitável.

        1. Eu também me chamo Luiz Antônio,mas sou inteiramente favorável a colocar a escravidão a Nosso Senhor e a Nossa Senhora nas mãos do Sr.Dr.Plínio e do Mons.João Clá,pois pela santidade deles, eles têm graças para ajudar as pessoas a serem escravos por amor e a serem fiéis a Nosso Senhor e a Nossa Senhora.Favor não confundir esse Luis Antônio acima, comigo.

  2. Uma coisa é ser escravo de Maria levando uma vida independente, outra coisa é ser escravo de Maria colocando em prática a obediência comunitária.
    Pessoas consagradas vivem realmente um cristianismo superior aos leigos, e ponto final.

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